GULAG TUNES

50 anos depois..

Conflito, ódio e alienação

O famoso Woodstock, que quase todo rocker velho ou novo… principalmente os novos, tanto amam, foi uma coisa de leke. Uns leke revolts que acabavam de ver o homem chegar à Lua e estavam na fila para um morticínio chamado Vietnã. Michael Lang, o organizador, tinha 24 anos. E maioria dos músicos que ali atuaram não tinham chegado aos 30. O Santana tinha 22 anos, Neil Young 23, Pete Townshend (dos The Who) 24, Jimi e Janis 26 e só Grace Slick (Jefferson Airplane) tinha já quase 30. Até o realizador do filme que havia de celebrizar o festival, Michael Wadleigh, tinha 26 anos, tal como um dos seus ajudantes que não tardaria a tornar-se célebre no novo cinema americano: Martin Scorsese, que à data já assinara um filme, Who’s That Knocking at My Door (1968).

50 anos atrás, o 15 de Agosto (primeiro dia do evento), já era feriado religioso em Portugal e também, data de outros acontecimentos históricos de relevância mundial. Caso da inauguração do Canal do Panamá (1914), a proclamação do Dia da Vitória pelos Aliados (no fim da Segunda Guerra Mundial – 1945), a independência da Índia e o consequente nascimento do Paquistão (1947).

O Festival (1969) realizado no Estado de Nova Iorque, nas colinas de Bethel, na fazenda de Max Yasgur, prometeu “três dias de paz, amor e música”, mas a verdade é que por milagre e sorte, aquele ajuntamento de meio milhão de pessoas, sujeitas ao sol, ao frio, à chuva, à lama, à escassez de alimentos (suprida por muitos voluntários) não redundou em tragédia. Mesmo as drogas, do vulgar haxixe aos ácidos (e a organização avisava, a partir do palco, que havia “ácido ruim” a circular, pedindo cautela), só fizeram uma vítima mortal, por overdose. Sem qualquer intuito de “equilibrar” tal perda humana, nasceu um mini humano no recinto. Foi uma aventura? Foi. E também um negócio que correu mal: um investimento de três milhões de dólares (valores atuais) e receitas de apenas $1,8 milhões, que levou 11 anos pra recuperar.

Reprodução do Festival de Águas Claras (1975 – 1984)

Assim como no ano presente, agosto de 1969 foi uma época turbulenta em todo o mundo – os Estados Unidos, estavam divididos sobre a guerra do Vietnã e os direitos civis. Festivais de música eram um conceito novo cinquenta anos atrás. Não era uma raridade na década de 1960, simplesmente inexistia esse conceito de evento de artes. Então, quando o festival foi anunciado, era uma obrigação para os amantes da música… e das artes.

Minha mãe diz que a música e a mitologização começaram, junto com a chuva, a lama, e a vertiginosa sensação de fazer parte de uma inesperada multidão, que se reunia para falar das previsões de desastre, dos sobrevôos de helicópteros para levar músicos e comida e emergências médicas, das performances de palco ( algumas irregulares e outras memoráveis, encontros aleatórios e principalmente amigáveis, as longas mudanças com anúncios urgentes, as ondas de euforia e desconforto e a pura implausibilidade de todo o evento.

Na minha opinião, foi um breve momento de lições contraditórias para as gerações vindouras. PARA NÓS!!!
Foi uma sacada de entretenimento que pareceu momentaneamente rebelde – “um festival de paz e música” – que postulava a arte como uma realidade alternativa. Concertos de rock e happenings faziam parte da agitação cultural do final da década de 1960, mas eram eventos locais, não aglomerações do tamanho de cidades com pessoas, supostamente pessoas que pensam da mesma forma, até onde os olhos podiam ver. Por isso, e repito na minha opinião, o Woodstock estava em uma escala diferente, alguns saltos quânticos para a esquerda.

O marketing “paz e música” para reunir uma comunidade inesperadamente grande e inesperadamente amável funcionou. A organização imaginava o prazer como uma solução para o conflito social, não apenas uma distração dele. (Isso não deu certo.)

Naquele agosto de 1969 pessoas morriam no Vietnã. Hoje o planeta morre nas mãos de ideólogos nazistas da América do Sul. Os contínuos shuttles de helicóptero, audíveis nas gravações de música ao vivo, eram constantes lembretes da tecnologia militar. A melhor música sobre o festival, “Woodstock”, de Joni Mitchell (ela não estava lá), prevê bombardeiros que se transformam em borboletas… Leia Sangue de Coca-Cola ( Roberto Drummond).

O festival em um dos seus pontos mais altos

Mais importante ainda, o festival de Woodstock mostrou pessoas que se consideravam “loucas” que não eram uma minoria tão pequena quanto pensavam. Robin Williamson, da Incredible String Band, parou durante um intervalo para se maravilhar: “O que me surpreende é quantos de nós temos. E isso me deixa fantasticamente feliz.”

Para aqueles que estavam assistindo, mesmo em 1969, viram que o evento simplesmente identificou um segmento grande e promissor do mercado jovem, pronto para a exploração comercial que se daria quase que imediatamente. “Woodstock Nation”, apesar das esperanças de Abbie Hoffman ao cunhar o termo, acabou sendo uma força demográfica e não política. O Woodstock, no final, é como nossos pais!

Pode-se dizer que todos os festivais que eu participei ou tive contato e são “crias” do Woodstock – Psicodália, Reading, Paredes de Coura, Rock in Rio e até mesmo o primeiro Lollapalooza (nesse eu não fui, mais ele sugeria uma nova comunidade de freaks) – o público foi tratado mais como consumidores do que como outsiders pensantes. O festival hippie, 50 nos atrás, era diferente, uma experiência de festival que ainda estava em grande parte sem forma. E que desde então, demonstra, que uma das principais lições/ regras/características de Woodstock, foi uma das mais óbvias: AS PESSOAS GOSTAM DE COISAS GRÁTIS!

Hoje sabemos que, deixando de lado as lendas de Woodstock, nem todas as boas vibrações eram comuns. Traficantes estavam distribuindo ácido ruim de várias cores, não apenas o marrom do filme. As fitas também capturaram tensões prolongadas entre os grandes à frente e as pessoas sentadas atrás deles que não conseguiam enxergar: “Sente-se!” “Fique de pé!” Como houve em Woodstock, em 1999, havia um profundo descontentamento com os preços dos fornecedores de alimentos. Mas isso não se transformou em tumulto; em 1969, Woodstock também tinha a Hog Farm, a comuna hippie que se preparava para fornecer comida grátis a milhares de pessoas durante o fim de semana de três dias.

Ilusória ou não, foi o fim de uma década próspera e uma economia otimista estimulada pelos gastos domésticos e, ironicamente, pelos pacifistas, o boom da manufatura da Guerra do Vietnã. Estatisticamente, 1969 foi o último ano em que os Estados Unidos administraram um superávit orçamentário até 1998, e a dura mentalidade que se estabeleceu com a recessão nos anos 70 não havia chegado. Por incrívelque pareça, nossa patraia amada, é o que mais se aproxima da realidade da época,e como muito de nossos pais, somos alienados e ainda seguimos com fé cega a faca amolada.

O ideal hippie era ignorar ou escapar do sistema, e não jogá-lo, como se faz 50 anos depois. A noção de que toda transação é um jogo de soma zero – se alguém ganha, outra pessoa tem que perder. Na década de 1960 expansionista, parecia que poderia haver o suficiente para todos. Os frequentadores do festival de Woodstock não eram reflexivamente egoístas; havia uma solidariedade, não aquela falsa que hoje impera no maior festival hippie do Brasil. A ciência social define uma “tragédia dos comuns”, em que os recursos comunitários sustentáveis???são consumidos pelo interesse pessoal individual de curto prazo… eu aposto que tu conhece alguém que diz essas coisas e idolatra esse falso passado ideal das revistas que contam sua versão da história.

Na lama, juntos, a maioria das pessoas estava disposta a rir de aborrecimentos e compartilhar. As drogas provavelmente ajudaram.

Mas esqueça a nostalgia. As gerações desse milênio tem todo o direito de idolatrar, assim como os meus, tem de apontar o Woodstock como a representação do privilégio dos baby boomers de forma cristalina. Eles tiveram um concerto gratuito repleto de rock stars. Em 2019 nós absolutamente pensamos ser o centro do universo. E depois, outra pessoa tem que limpar a bagunça gigante que deixamos para trás. Insira a analogia do aquecimento global ou a floresta amazônica em chamas.

Woodstock assustou e confundiu a mídia. Relatórios contemporâneos contaram com fontes oficiais – polícia, pessoal médico, governo local – e provocaram um desastre de engarrafamentos, falta de comida e surtos de drogas. Mas mesmo na chuva, muitas pessoas estavam se divertindo muito. Para a grande maioria das centenas de milhares de pessoas em Woodstock, não havia mais dificuldades do que haveria em um acampamento de fim de semana muito mal planejado.

 

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Opium Jones

Opium Jones é um pirata que queima pontes e destrói miragens com frases que provocam visões e colisões. Uma alucinação de ácido, e por que não um desses mistérios da vida. É um cara loco e insano que ama a psicodelia da vida e vagar por aí. A única coisa que sabe com certeza, é que não sabe o que quer fazer. Escritor e poeta, usuário de drogas, faz som e uns filmes. Faz um monte de coisarada... Só seguir!

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