ARTIGO

Alguém ainda se importa com o Rock?

O último suspiro musical de 2018

Ultimamente o rock me obriga a viver do passado, e nesta semana festiva, a última de 2018, a pergunta que me fica, mais uma vez, é: Será que alguém realmente se importa com esse interessante momento gráfico do rock?

O bom e velho Rock n’ Roll, não consegue ocupar o mesmo espaço cultural de uma faixa de um reality show destinado ao anonimato daqui a poucos anos. Efetivamente, parece que se espalhou um feitiço parecido com o do Grinch, no filme gringo de natal. Eu acho que agora o rock anda sentindo- se realmente amargurado, velho.
O que mais ouço é o pessoal da cena discorrer vagamente sobre como à ascensão do streaming mudou a lealdade do público com os artistas.

Recusam se a aceitar, assim como as major’s, que gastar dinheiro em uma música é considerado um investimento admirável em uma época em que podemos ouvir realisticamente qualquer música de graça.
Já é estranho pensar que houve uma época, a nem tanto tempo atrás assim, em que as bandas vendiam um milhão de singles por semana. Tudo muito bem controlado pelas malditas grandes gravadoras. Lembrando que as mesmas ainda desempenham um papel fundamental em todo o eco sistema.

Fato é que agora todas essas campanhas e métodos para alcançar o primeiro lugar parecem uma tática antiquada e assim como o próprio sistema, estão a desmoronar em relevância nas conversas mais amplas, assim como começam a parecer bregas e desnecessárias no cenário musical contemporâneo. Agora o ouvinte é mais resistente e exigente, e prova constantemente, com a enorme quantidade de música foda que recebo diariamente por aqui,  que ele está mais propenso a favorecer uma música que realmente gosta do que aquela que as gravadoras e os youtubers andam dizendo que devem subir ao topo com todo apoio e sem qualquer tipo de raciocínio ou sentimento.

Em termos comerciais, me parece que o rock se tornou um paradoxo. Seus veteranos ainda dominam os negócios dos concertos e, nos formatos de festivais, grupos de bandas indie-rock e metal também se saem bem, mais para um público cada vez menor. As estações de rádio de rock clássico prosperam parasiticamente na nostalgia, incorporando lentamente as faixas dos anos 90 e às do início dos anos 2000. Até mesmo os formatos “alternativos” do rock em atividade apresentam poucos lançamentos atuais, e aqueles que são tocados são incapazes de passar aquela vibração rock and roll de cantar bem alto no busão, com bate cabelo e air guitar. Talvez por serem híbridos de gêneros mais suaves que são muito discutíveis como rock.

Na real, faz muito tempo que não aparece uma banda fodastica, e depois de ter assistido e refletido sobre o documentário da Banguela Records e a Turma de 94, digo com certeza que “Não há uma banda que você possa me apontar, que seja uma banda Rock and Roll de verdade”.
Quando eu e as pessoas falamos sobre rock, temos uma visão em nossa cabeça de uma banda de três ou cinco membros, fumando, com visual contestador, um pouco de couro, drogas e algumas tatuagens e letras que te fazem querer sair por ai e mudar a porra do mundo na porrada … uma banda que vem do nada e toma conta da contracultura. Isso é inquestionável – se uma banda como essa aparecer hoje, não haverá infraestrutura para suportá-la.

O som não é mais amplificado no quartinho dos fundos, agora tudo acontece com ProTools no note; Exprimem mal a realidade e o humor e acertam na falsa introspecção sombria, tudo em vez da clássica revolta juvenil. O pessoal do rock está fazendo exatamente o que lhes dizem que devem fazer, e está muito bem acomodado.

É bem verdade que nem bandas nem seus fãs se importam muito se sua música é classificada como “rock”. O gênero frequentemente se define em outros estilos,  e para a geração jovem do streaming e reprodução, as empresas de mídia mantém esses rótulos para impulsionar os seus vários mercados. O que percebo é que o rock se torna, a cada temporada que passa, uma conversa para pessoas com mais de 40 anos que gostam, porque já se entregaram ao seu passado áureo. Quem tocou o foda-se para o passado e as novas gerações que ainda estão construindo esse passado, não se identifica com o que está por ai. Sempre tem uma banda ou outra… As vezes penso que só gosto, pq gosto de rock. Fui criando no rock. No punk meu!… Deve ser por isso que eu ainda tento com o rock… é verdade que ta tenso!

O Rock precisa reestabelecer o paradigma da autenticidade, a rebeldia contra a corte branca mais velha (e uma certa facção mais nova). O Brasil ta propenso para uma retomada inteligente de gangues rebeldes com caras e minas individualistas que se levantam contra a sociedade. A mais estrita perspectiva “rockista” ainda leva os ouvintes a resistir à ideia de que o estilo com sucesso comercial pode ter coisas igualmente urgentes para dizer. Nesse nível, se colocar o rock no pasto – entendendo-o mais como o jazz, como uma forma de herança ainda praticada e influente, mas além de seu auge.

É necessário um espírito desobediente para equilibrar as pressões econômicas que impulsionam a música e a mídia em direção a uma ênfase restrita, de sobrevivência do mais forte… só os mega-top. Os resultados são mais demograficamente inclusivos e conformistas, do que pensam muitos talentosos artistas que sofrem e se entregam a mesmice por serem marginalizados pela imprensa e pela indústria. Não vai mais existir uma era do rock, não há mais espaço para excêntricos distorcerem o jogo.

Esse novo padrão talvez seja melhor utilizado por artistas mulheres, que se apropriam da flexibilidade do rock para expressar pensamentos fora dos limites e ignorar as posturas clichê.

A maioria das bandas de rock já aceitou que estão fora do jogo pop, para melhor ou para pior. Quando falo com grandes e pequenas bandas novas, elas não têm mais esses objetivos. Parece que a esmagadora maioria das bandas focou em voltar para essa tradição. Existe essa ideia de reconhecer o passado, mas sem querer muito modernizá-lo. Eu acho que é querer ficar fora do mainstream, em vez de assumir o controle.

Estão jogando o rock no mesmo saco do blues, jazz, bebop, soul, R & B, heavy metal, punk rock e rockabilly. Fazem os artistas acreditarem que não estão se conformando como os artistas que vieram antes , mas que estão criando seu próprio caminho, na música e na vida.
O pessoal do rock acaba por perder o verão no meio de um inverno sombrio imposto por si próprio.

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Opium Jones

Opium Jones é um pirata que queima pontes e destrói miragens com frases que provocam visões e colisões. Uma alucinação de ácido, e por que não um desses mistérios da vida. É um cara loco e insano que ama a psicodelia da vida e vagar por aí. A única coisa que sabe com certeza, é que não sabe o que quer fazer. Escritor e poeta, usuário de drogas, faz som e uns filmes. Faz um monte de coisarada... Só seguir!

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