COLUNALATINA

As canções de “despecho” e a ilusão do despreconceito musical

Um ensaio de comparação entre o sertanejo e o vallenato

Grosso modo, “despecho” é uma palavra da língua espanhola que se refere ao estado de decepção e tristeza de uma pessoa. Mais precisamente, é o ressentimento por desengano, menosprezo ou desilusão amorosa. Aqui na Colômbia é usada quase que nos mesmos moldes de expressões confusas como “dor de cotovelo” e afins. E foram nas situações de “despecho” de pessoas próximas, aqui na Colômbia, que consegui reviver os momentos provincianos de tantas reuniões de famílias brasileiras: quando, depois de horas de álcool, chega o momento de cantar forte e falar sobre amor — com muita moda de viola, na verdade.

É certo que o sertanejo é um gênero complexo de ser analisado na sua dimensão sociocultural — e já adianto aqui que ao dizer “sertanejo” me refiro em maior parte às produções das primeiras gerações de artistas do gênero, bem mais próximas ao que se conhece por “moda de viola” e “sertanejo romântico”. Também é certo que não é preciso conhecer muito para notar suas semelhanças com produções latinas vizinhas, especialmente no que diz respeito à origem do gênero.

Nesse sentido, acho que é explicável porque compara-se tanto o sertanejo com o vallenato (gênero autóctone colombiano), a considerar brasileiros e brasileiras que passam por aqui e, ao escutar os sons gaiteiros, agudos e vozes com muito vibrato pelas ruas e bares, já associam quase que imediatamente a muitas canções de “despecho” brasileiras, vulgo sertanejas. É como se todo país latino tivesse seu “sertanejo” e esses gêneros, no fim das contas, se assemelhassem não só nos aspectos musicais em si, mas principalmente na conjuntura social em que eles operam.

O vallenato é praticamente uma das primeiras exposições à cultura local assim que se chega na Colômbia. Ele está nos centros urbanos, nas lojas populares, nos bares de esquina, nos altofalantes das ruas, das feiras, dos carros, em festas, no campo, no litoral, competindo bem com a força midiática e a indústria pop. Mas o vallenato está mesmo, principalmente, na cabeça das pessoas. E e aí a comparação entre esses dois gêneros começa: as implicações sociais do vallenato e do sertanejo são o que mais os aproximam.

Para elevar a discussão a coisas que realmente interessam, focar em analisar pessoas que já vivem esses gêneros em sua autenticidade não consegue revelar, de fato, porque eles se tratam de músicas que estão por toda parte. Porém, analisar a adesão em massa dessas canções por pessoas (e áreas do entretenimento) que não a compreendem em sua dimensão artística de verdade pode dizer muito mais. E o que o “despecho” tem a ver com isso? Ele é o álibi.

Não só o sertanejo e o vallenato falam de amor. Não só o sertanejo e o vallenato levam nas costas o preconceito sórdido por serem vistos como “bregas”, “roceiros” e “caipiras” de maneira tão pejorativa (já que não há nada de negativo nisso). Não são só eles os escolhidos em momentos de despecho.  Mas por que tão reverenciados nesses momentos? Por que se fazem presentes, então, na realidade de pessoas que até mesmo repulsam suas existências? Por que passam a estar em ambientes que nada conseguem aproximar-se da verdade das suas músicas? Por que é receptível o “brega” em momentos de vulnerabilidade? É kitsch, é progressista, é tolerante? As pessoas são musicalmente indulgentes de verdade por isso?

Não se saberia nem se isso tornasse uma tese. De fato, o vallenato e o sertanejo revelam muito sobre o patriarcado –  passou da hora também de notar que eles não estão sozinhos nessa, amigues! -, mas não deve-se reduzí-los a isso. Os momentos quase idênticos em que as pessoas os consomem são só o início de uma observação que é muito mais complexa. Os dois dizem respeito a canções de despecho, mas também demonstram o fardo que carregam por tanta subestimação e inferiorização por outros gêneros musicais durante tanto tempo. O machismo e o sexismo não precisam mais vigorar a ponto de que seja necessário qualquer desculpa pífia para falar sobre amor, infidelidade, abandono e não correspondência e, hoje, os momentos de despecho – ou “sofrência”? – são muito mais que isso.

Ainda que atualmente o sertanejo seja tão aderido em universos diversos, muito precisou-se mudar na sua própria musicalidade para que isso acontecesse (vide o tal do “universitário” e sua indústria de bilhões). Então, se for para cantar no fim do churrasco aquela Evidências de sempre, canta de verdade e vá além: conheça as modas que a influenciaram, porque cafona é usar da comicidade para não assumir que algo pode ser realmente bom para você.

Fiquem com um vallenato bem cumbero e despechado. 1 beijo.

 

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Thaylla Gomes

Correspondente da Escuta Que É Bom na Colômbia levando choque centrobogotano diário de realidade. Pesquisadora, graduada em Comunicação e cursando Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília, acolhida pela Universidad de los Andes, em Bogotá, e agora entendendo melhor os encontros e dissonâncias entre a brasilidade e suas vizinhanças. Sabe mais de moda de viola do que a cara aparenta. Vai sempre pelo som regional, experiências locais e rolês com glitter. Desvendando a latinidade e gritando pelas coisas que resistem. Também invento palavras.

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