DESTAQUEDIÁLOGOS

As construções coletivas de Além do Líquido

O novo trabalho da banda Lapso versa sobre dinâmicas conjuntas

Em junho desse ano, a banda brasiliense Lapso divulgou na internet a gravação de um novo disco. Quem tivesse interesse poderia adquirir um ingresso para presenciar a construção desse trabalho. Tudo se deu ao vivo.

Diante dessa chamada – dessa possibilidade de acompanhar a construção de um álbum experimental, colaborativo e intuitivo – decidi adquirir um ingresso e desvendar o que vem a ser um álbum ao vivo.

Presenciar essa gravação me colocou em suspenso. Qualquer uma das pessoas que ali estavam para ouvir poderia decidir tocar algo, qualquer coisa. E essa interação escancara as portas que a Lapso tem aberto para a intuição.

Além dos idealizadores e executores desse trabalho, Rafael Bacellar, Malu Engel e Kino Lopes, o álbum “Além do Líquido” conta com a participação de Gaspar Barrios, de Daniel Pita e de Cá Rocha. A captação e mixagem foram feitas por Pedro Menezes.

Para saber mais sobre o processo de criação e o pensamento de cada um dos participantes da banda leia a entrevista a seguir.

Quando vocês se propõem construir um álbum ao vivo, cercado de improviso e intuição, como vocês se preparam? Quais são os preparativos?

Rafael Bacellar: Primeiramente, obrigado pelo convite para a entrevista. Estamos muito felizes com a repercussão que a Lapso tem tido. Sobre a pergunta, temos trabalhado com diferentes formações; por conta disso, nos preparamos fazendo um ou dois ensaios com o grupo e passamos um bom tempo conversando e ouvindo as referências sonoras que temos em mente.

Malu Engel: Exato. Esses encontros prévios são importantes porque vamos criando mais afinidade entre a gente, e assim o improviso sai mais orgânico. Costumamos gravar os ensaios e ouvir depois também. Não é raro ficarmos mais satisfeitos com o som do ensaio do que do próprio show! Acho que é porque ficamos mais relaxados, na apresentação sempre rola uma tensão dos preparativos, da expectativa, mesmo se tratando de improviso. E tudo bem, nossa proposta também é abarcar toda essa atmosfera, essas inquietações.

Kino Lopes: Nessa fase atual da Lapso, que eu diria que começou por volta de novembro de 2018, se encontra dentro de uma práxis de trabalhar mais ou menos cada semestre com um grupo de tamanho sempre semelhante, mas com a instrumentação diferente, e nesse estágio as preparações giram em torno de poucos encontros pra discutir alguns escritos, uns sobre improvisação livre, outros não, e conversar sobre o que localizamos neles, e como contrastam com nossas opiniões sobre a prática. Depois tocamos, se bater a vontade, e na hora da apresentação executamos, esperançosamente mudados pelo momento preparativo.

A dinâmica da concepção e preparação do som acompanhou a mudança do grupo, como também acompanha nossas mudanças individuais, que falando pelo menos por minha parte, e acredito que na do Rafa também (que também pesquisa de forma acadêmica, acabou de terminar um mestrado relacionando a prática com o Zen Budismo), olha cada vez mais em direção a a-centralidade da improvisação como modo de produção central.

Vocês convidaram pessoas para assistir à gravação. Havia uma expectativa de participação sonora por parte daqueles que foram ali ouvir vocês?

R: Essa é uma questão que dessa vez deixamos propositalmente em aberto. Quem quisesse e sentisse que sua participação acrescentaria à atmosfera poderia participar. Ultimamente temos tido essa abordagem em nossas apresentações.

M: Sou totalmente a favor de abraçar essa espontaneidade, afinal o som que fazemos provoca muito essa liberdade criativa. Mas acho que evitamos criar expectativas, até porque isso acaba limitando a fluidez do som. Se alguém se sentir à vontade para trocar com a gente, ótimo, vamos ouvir e reagir como fazemos com qualquer interferência, e o som vai se metamorfoseando organicamente.

K: Num sentido mais geral, sempre tem participação direta de quem está assistindo e ouvindo, voluntariamente ou não. No devir da performance, a lei mais forte, ou pelo menos uma das, é a disciplina, que se adquire através do ouvido atento, como executantes e ouvintes de manter o centro formal (podemos chamar isso também de caminho) vazio, para assim dar as boas-vindas aos materiais que nunca trabalhamos antes, que não conhecemos, ou talvez mais importante ainda, os materiais que já conhecemos, mas agora com novas perspectivas e novos direcionamentos.

O afeto é a marca definitiva da construção formal, é ele que permite que uma parte de si descomponha, para assim se deixar afetar produtivamente pelo o outro, e manter o vazio pronto para acolher.

Essa confiança de ir em direção ao que não se conhece pode servir como o ponto de encontro entre os que estão dispostos a tentar compartilhar seus sons como se não fossem seus, e ouvir os dos outros como se não fossem dos outros. A parte do escutar é com certeza a parte mais criativa, por isso que a plateia sempre participou e sempre vai participar.

Dentro do trabalho de vocês, a voz é empregada como um instrumento. Como vocês enxergam essa dimensão orgânica e natural do som humano?

R: Acreditamos que a partir do momento em que a voz se distancia do seu emprego tradicional na canção, é possível explorar outras sonoridades. Nas obras de compositores como Luigi Nono, pode-se observar que a voz produz determinados ruídos, letras esparsas, e isso permite o emprego de elementos que não são necessariamente o cantor de uma letra de uma música. Nesse contexto, a voz expande seu potencial criativo com relação ao limitado espaço das notas musicais e torna-se uma verdadeira criadora de atmosferas.

M: Sempre pensei na voz como um instrumento de potencial incrível que muitas vezes acaba sendo pouco explorado. Gosto de buscar diferentes texturas e possibilidades sonoras de uma forma bastante lúdica e livre, evocando todo tipo de paisagem ou não lugar. Vejo que a pegada da Lapso é bem essa mesmo, de que a voz seja mais um instrumento atuante como qualquer outro.

Como se deu a escolha dos áudios que abrem o trabalho?

K: O áudio que abriu a improvisação foi a leitura de um trabalho de uma poetisa palestina, na sua própria voz. Na versão lançada, decidimos abrir o álbum com os graves gelatinosos do piano do Rafa que seguem a recitação, deixando ela surgir pela primeira vez no que foi no dia sua segunda aparição, mais ou menos na metade da primeira faixa, dessa vez em uma relação multiplexa com uma entrevista da filosofa estadunidense Angela Davis, outra conversação com o diretor iraniano Jafar Panahi, uma vídeo-aula de um professor vietnamita lecionando sobre as micro-articulações que estruturam seu idioma, e em seguida uma gravação (álbum Giant Steps) do John Coltrane com seu quarteto executando o tema de Naima, uma composição do mesmo.

O aparecer das falas, de maneira não exatamente clara em relação ao que está sendo dito, de maneira um tanto anônima, mas que sua origem, seu contexto histórico e seu convívio captam e são captados através do que ecoa tacitamente entre os diferentes gritos, uma espécie de segredo que habita entre as dicções que é pescado pelo “anonimatismo” da forma.

Há diversas formas de tirar sons, melodias e timbres de objetos e movimentos corporais diversos. Me lembro de ver, durante a gravação do disco, chaves, pedaços de papel e água serem suportes sonoros e se tornarem parte da construção do disco. Esses aspectos físicos, que veem com a presença das pessoas que foram até ali, são importantes para vocês?

M: Acredito que sim, no sentido que no improviso tentamos agregar tudo o que está acontecendo ao nosso redor, todo elemento é passível de ser incorporado no som e o será de certa forma. Há coisas que já tinham sido pensadas e outras que surgem na hora, e o destaque e energia que cada uma delas vai movimentar depende muito da interação coletiva.

Daniel Pita: Toda a física é importante: do aspecto material dos instrumentos musicais, que são resultado de uma concepção acústica e física que ali toma corpo, à física geral do som, a acústica. Todo corpo é sonoro, e pode portanto participar da construção musical, da construção de novos estados de consciência e percepção, da construção de novas formas coletivas. Manter o pensamento nas propriedades físicas do som é pensar e sentir o cosmos, é pensar e sentir todo o contínuo espacial e temporal universal, é pensar e sentir todo o contínuo da experiência humana. Criar a partir do pensamento e da percepção física do som é criar já dentro do infinito.

Haverá algum registro em vídeo dessa gravação?

K: A Hairkurat K filmou a apresentação inteira. Usamos alguns trechos no teaser, e pretendemos montar algo com a captação completa. Sempre leva a várias reflexões e vários bons problemas a ideia de como encontrar uma imagem pra esse tipo de processo/música, então as vezes tende a demorar, mas a paciência é intrínseca a essa altura do campeonato.

Qual era o desejo (musicalmente falando) de vocês para esse trabalho?

R: A partir de uma apresentação que fizemos no espaço N27, começamos a explorar cada vez mais as possibilidades dos sons digitais e eletrônicos associados aos elementos acústicos, tendo por base referências da música eletroacústica e experimental. Há determinados instrumentos que foram mantidos completamente acústicos, como o saxofone, o contrabaixo e a clarineta. Além disso, trabalhamos com teclados, sintetizadores e com o computador e as manipulações sonoras que este permite.

A Lapso passou por mudanças significativas ao longo de seus mais de dois anos de existência, iniciando como uma proposta composicional usando instrumentos acústicos, indo depois para a improvisação livre, e atualmente encontra-se nesse momento de experimentar possibilidades eletrônicas da improvisação. Do ponto de vista da construção do discurso musical, nos distanciamos dos territórios harmônicos tradicionais, da canção, das elaborações composicionais, e buscamos uma desterritorialização, um ato de remover o chão, que nos permite uma espontaneidade cada vez maior para uma criação musical onde a transitoriedade e a impermanência são a norma.

M: Eu ainda acabo indo bastante pro lado harmônico, pois isso é uma busca espontânea minha. Pessoalmente, curto esses contrastes entre o chão e o etéreo. Não gosto muito de normas. Mas é claro que às vezes rolam aqueles mantras cíclicos, da nossa própria natureza que a gente acaba por retornar sem perceber, e acredito que é um desafio que a Lapso propõe de se desvencilhar e romper com isso.

K: A improvisação livre é uma revelação em formato coletivo que carrega consigo a geração daquilo que não pode se experienciar sob a forma do próprio. O ouvir/reagir como princípio proporciona a oportunidade de fazer surgir novas formas, através da consciência de estar em um processo de criação comunal (mesmo em uma improvisação solo, que depende e convive com as multiplicidades de um local para exalar), que incorpora as constantes transformações musicais e afetuosas dos participantes.

Por isso, o desejo (talvez da própria improvisação) é fazer aparecer a ideia de algo ainda não imaginado, é olhar em direção da possibilidade. Porém tem um outro lado: por mais que a música improvisada (entre outras práticas de partilha) ofereça as condições necessárias para que um imaginário cultural diferente se desenvolva, ela não gera espontaneamente essa nova afetação. A repartição de mensagens que propõem possibilidades outras enfrentam obstáculos duros dentro de uma estrutura que faz circular livremente apenas aquilo que aponta novamente para sua predominância. Aqui nasce a necessidade de ações concretas e regulares com base na busca de um espaço, que antecede a cultura, que ultrapasse, como o no interior da improvisação, a relação entre indivíduos privados e formas privadas, um espaço que se preocupe com fazer rodar aquilo que irá levar consigo tensão e instabilidade, para assim oxigenar novas formas de circulação e afetação.

Enquanto os artistas permanecerem inconscientes das implicações estruturais de suas manifestações, seu desenvolvimento e sua força de transformação como criadores e como seres humanos serão possivelmente diminuídas ou até reprimidas. Esse segundo espaço também necessita de ser um desejo e um alvo compartilhado.

A Lapso Orquestra pode voltar a aparecer como forma de expandir esse trabalho?

K: Com certeza, esse é o nosso quarto lançamento pela Gris Records, e acho que tem muito que pesquisar ainda, muitos possíveis limites pra encarar, tanto musicalmente tanto em outros termos. No momento, estamos focados em lançar também pela Gris um novo projeto do Rafa comigo, chamado Cavalo Preto, o novo álbum do Ventura/Desnos, ainda sem nome, e uma compilação de gravações de improvisos que ocorram em diversos concertos ao longo dos últimos dois anos. Mas sim, a Lapso segue.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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