DIÁLOGOS

O corpo do som: a fluidez do improviso

Alguns projetos brasilienses têm se destacado na construção intuitiva da música

A aparição dos sons pode evocar muitas texturas e imagens e abrir espaço para uma certa plasticidade do som. Constantemente construímos imagens a partir de sonoridades, montamos cenas e expandimos o nosso olhar; o que ouvimos gera o que vemos – ou o que construímos visualmente. Essa forma de experenciar a música é leva muito a sério por artistas brasilienses que trabalham sobre a ótica do improviso.

Por meio da intuição uma gama de caminhos se abre e contorna o encontro de sons e pessoas. Muitos desses trabalhos são desenvolvidos entre amigos – considerando a densidade e a sensibilidade é crucial que haja entrosamento entre os músicos.

O recorte feito aqui recaí sobre quatro projetos: REC (o trio é composto por Caio Fonseca, Edgar Felipe e Rafael Bacellar), Lapso (também segue uma formação em trio; composto por Malu Engel, Kino Lopes e Rafael Bacellar), Ventura/Desnos (formado por Kino Lopes, Daniel Pitta, Bruno Roll e Gaspar Barrios) e vi~nau (projeto solo de Matheus Vinhal com participação de Vitor Wutski, Pedro Keppler, Daniel Penteado e de Evandro Machado).

Em 2017, durante uma entrevista que realizei com Caio Fonseca (REC, Zéfiro e Stoyca) ele sublinhou um aspecto fundamental na construção de sonoridades improvisadas: “O ouvido afiado acaba sendo uma demanda da liberdade”. Essa afirmação demostra que não basta o desejo de querer experimentar os sons de forma livre, é preciso saber como fazer isso. Ou seja, a improvisação deriva da experiência; existem métodos e pesquisas que corroboram para a criação livre e improvisada.

O improviso requer trabalho!

As referências expandem os caminhos, abrem espaço para novas releituras e cortes – no caso do projeto de Matheus Vinhal, Geraldo Azevedo é seu ponto de partida; vi~nau usa samples de um fonograma de Geraldo, a música “Suíte Correnteza”.

A gravação desses trabalhos acaba ganhando um corpo específico. Após o estudo, a construção da ideia do projeto, acontece a gravação. Para manter a atmosfera da música em suspensão (ela ainda não existe enquanto matéria, mas está sendo gestada) um recurso explorado por esses projetos é a gravação em uma única sessão.

O registro do improviso livre acontece para dar corpo ao som. O som é o objeto primeiro. Seja por meio de instrumentos ou por meio da voz, essa instância ganha destaque. Dentro do trio Lapso os timbres encontram na polifonia sua expressão.

Pensar no improviso como prática de expansão do som o torna coletivo. Esse tipo de desdobramento pautado na espontaneidade dos ouvidos evidencia os conhecimentos técnicos, mas ressalta, sobretudo, a sensibilidade sonora, como é o caso do projeto Ventura/Desnos.

O cerrado tem se mostrado terreno fértil no campo do improviso, valorizando a subjetividade por trás da técnica, fornecendo plasticidade aos ouvidos!

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

2 Comentários

  1. Ótima matéria, muito bem escrita. A música intuitiva, a improvisação, a criatividade musical e, de maneira geral, a criatividade são formas de mudança pessoal e social. Criar é necessário, aindamais em tempos onde a situação socioculturai do contexto não é propícia à criatividade. Quando idealizei a Gris Records tinha o intuito final de produzir e amplificar mudanças positivas intra e inter pessoais e em ajudar músicos se tornarem cada vez agentes ativos dessa mudança. A classe artística tem muito poder. Mas, me parece, não sabe o quanto e comk utilizá-lo (isto é una generalização). É necessária a organização ecológica e sustentável das artes de maneira independente do Estado, especialmente neste momento. Agradeço pela matéria e me disponibilizo para falar muito mais.

    Edgard Felipe
    Gris Records, CEO

    1. Edgard fico feliz que tenha gostado da coluna! Acredito muito na arte como transformação, como movimentação das estruturas e pensar no improviso como criatividade intuitiva me parece uma ótima forma de construir música. Quero aprender mais sobre isso! Vamos trocar figurinha, por favor. Estou aqui como curiosa e apreciadora. Tudo começou ouvindo REC, lá em 2017. Seguimos aprendendo!

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