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Ellen Oléria: ancestralidade, militância e “mudernage”

Entre peças, rap's e afrofuturismos, a carreira da cantora é sinônimo de representatividade

#PERFIL

N
o dia 2 de junho de 2009, Ellen Gomes de Oléria, ainda um desconhecido talento da música noturna no DF, estreava o show de seu primeiro CD, Peça, no palco do Centro Cultural Sesi de Taguatinga. Foi ali que a nêga (como é carinhosamente chamada pelos fãs), ao lado da produção independente da equipe Carne Dura (liderada hoje por sua esposa, Poliana Martins), deu o primeiro passo em direção às dimensões globais que tomaria sua carreira. Nunca perdeu de vista, no entanto, suas origens, suas lutas e o diálogo disso tudo com um mundo contemporâneo, tecnológico e político.

“[Agradeço] aos meus ancestrais pelas raízes que me significam e aos poderes naturais e sobrenaturais que me mantêm viva.”  Ellen Oléria, no encarte do disco Peça.

Peça, um reflexo direto dos anos de formação da cantora em Artes Cênicas na UnB, trazia sons de uma atmosfera teatral e íntima, mas ao mesmo tempo de crítica social e consciência preta, caminhando solto por gêneros e identidades musicais diversas: da MPB ao Soul, do Rap ao Forró. Neste álbum, foi lançado aquele que é até hoje seu hit de maior sucesso, Testando, canção que é, por um lado, uma mistura do rap nacional que vem “invadindo a cena” do DF com nuances da Black Music, do Soul e do R&B americanos e, por outro, um grito contra o machismo, a violência e o preconceito racial no dia-a-dia da capital. Confira:

Em Testando, seu primeiro videoclipe oficial, Ellen Oléria entoa o lema “A minha voz
transcende minha envergadura. Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”
.

 

Mulher, negra, lésbica, periférica e filha de nordestinos, Ellen carrega consigo uma história difícil: conta, por exemplo, em sua entrevista para o Programa do Jô, como teve, ainda criança, de trabalhar vendendo salgados e marmitas nos semáforos da Ceilândia para ajudar a sua família. Sua trajetória musical neste cenário teve início cedo, cantando no coro da igreja que frequentava por influência dos pais, e começando, aos 16 anos, a apresentar-se em bares e casas de show em Taguatinga, atuaria profissionalmente na música a partir do ano de 2000.

“Se é loucura o que não tem razão. Sonho, logo sou louco.” Ellen Oléria, Pedro Falando com o Reflexo.

Provavelmente a faixa que mais rápido conquistou os ouvidos brasilienses,
Senzala (A Feira da Ceilândia), um hino contra o consumismo, mostrava o contraste
entre o consumo alienado na periferia e o consumo consciente nos centros urbanos.
Na música, Ellen enfatiza: “Mas o que você precisa mais na feira não se pode encontrar: razão, consciência, senso,
inteligência, uma cabeça pra pensar. Isso só no shopping lá do centro você vai achar, se tiver dinheiro pra comprar”
.

 

Em setembro de 2011, Ellen lança seu primeiro disco e DVD ao vivo junto ao grupo Pret.utu, o qual era composto pelo baterista Célio Maciel, o guitarrista Pedro Martins e o pianista Felipe Viegas, posteriormente integrantes fixos da banda oficial da artista. O show Ao Vivo na Garagem conta com as participações especiais de Hamilton de Holanda e Emicida, sendo eternizada com este último a música que será um verdadeiro divisor de águas na carreira de Ellen, Mudernage, que traz pela primeira vez uma marca central de seu trabalho: o questionamento e o uso da modernidade. A faixa é gravada em estúdio e relançada no seu mais novo álbum solo, Afrofuturista, de 2016.

Em seus shows, Ellen explica que “Mudernage” é um neologismo que refere-se à maneira com que as
pessoas mais velhas do Nordeste, inclusive seus pais, falam da modernidade e dos novos ritmos musicais.
O termo invoca ao mesmo tempo as raízes interioranas da cantora e a
tecnologia dos sintetizadores e beats eletrônicos que vêm influenciando seu som.

 

Foi neste meio tempo, mais especificamente em 2012, que Ellen participou na primeira edição do reality show The Voice Brasil da Rede Globo, estreando com um dos covers mais memoráveis já vistos de Zumbi, sucesso de Jorge Ben nos anos 70, uma sequência de apresentações formidáveis que a mantiveram no topo, semana após semana, até o prêmio. A vitória no reality lhe rendeu um contrato com o lançamento de seu primeiro álbum não independente pela Universal Music do Brasil. O novo Ellen Oléria, batizado com seu nome, incluía tanto seus covers de maior sucesso no programa como alguns inéditos, além de uma nova leva de trabalhos autorais numa pegada mais MPB, com influências mais marcadas da cultura mineira e goiana. Veja:

Um dos principais singles do álbum, Me Leva recebeu um clipe em animação, inspirado
em identidades afrobrasileiras e dirigido pelo desenhista e animador brasiliense, Renato Moll.

 

Em 2016, Ellen Oléria retorna à produção independente, lançando seu novo álbum solo sob influência do afrofuturismo, movimento estético e filosófico que salienta a diáspora da cultura africana no meio informacional. Afrofuturista mescla, assim, os sons diversos da ancestralidade afro com batidas eletrônicas, guitarras e harmonias mais progressivas, fazendo uma releitura da presença africana no Brasil contemporâneo e um contraste entre passado e futuro da população negra.

“A gente está falando de rotas e raízes, identidade, pertencimento. Por isso, o nome do disco não é qualquer futurismo, é um afrofuturismo.” Ellen Oléria, em entrevista ao Correio da Paraíba.

Desde o ano passado, além disso, a nêga integra, junto com Elisa Lucinda e uma equipe de atrizes, a maioria delas negras, ao elenco do espetáculo L, O Musical, de Sérgio Maggio. A narrativa, um verdadeiro manifesto feminista, se debruça sobre o amor entre mulheres e desenvolve-se tendo como trilha sonora uma seleção de canções das maiores compositoras do Brasil, como Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia e a própria Ellen Oléria.

Foto: Divulgação

Enfim, se podemos resumir a carreira da Ellen em duas palavras, elas são ancestralidade e modernidade (ou “mudernage”), opostos que ninguém diria serem complementares mas, pelo menos aqui, se complementam perfeitamente. Pro futuro, nas palavras de Ellen, é essencial “pensar como a gente se conecta com nossa ancestralidade, com a nossa herança musical, que alimenta tanto a cultura do Ocidente”. E você? Já fez alguma coisa hoje pra se conectar com sua ancestralidade musical? Não? Então escuta aqui que é o futuro. Melhor ainda, Afrofuturo.

Lyric Video da faixa tema do novo CD, Afrofuturo. Na letra: “Quebrando os padrões,
saindo dos porões. Dê-me um punhado de palavra e fogo, faço minhas poções”

 

#DISCOS

 

SOLOS
Peça

Peça
2009
Independente

Ellen Oléria

Ellen Oléria
2013
Universal Music

Afrofuturista

Afrofuturista
2016
Independente

PARCERIAS
Ao Vivo na Garagem

Ellen Oléria e Pret.utu
Ao Vivo na Garagem
2011
Independente

Soatá

Soatá
2013
Independente

#OndeEscutar

 

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Fonte
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Luy Duarte

Músico e vocalista popular desde cedo, possui experiência com teatro musical, MPB, cultura hip hop e história da música. É aluno e pesquisador em História pela Universidade de Brasília, onde estuda a difusão da arte grega na Antiguidade.

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