BRASILEIRADIÁLOGOS

Entre Luiz Melodia e Eduardo Coutinho

O encontro com o passado proporciona movimento no presente

A busca por referências passa pela recapitulação do que já foi, ou seja, do passado. Voltar a tempos anteriores ao agora é uma forma de desvendar o que nos acomete e encontrar inspirações. Não há dúvidas quanto a relação inseparável entre os tempos (passado, presente e futuro). São os vislumbres, as memórias e as lembranças que nos fazem contar nossas histórias.

Pensando em artistas que vieram antes – e que infelizmente já nos deixaram – visualizamos a construção (e a continuidade) da história da cultura brasileira.

O último álbum de inéditas de Luiz Melodia, Zerima (2014), e o último filme de Eduardo Coutinho, Últimas Conversas (2015), destacam a beleza das conversas e dos encontros. Trabalhos potentes e cheios de força humana; revisitar o último trabalho desses grandes nomes da cultura brasileira é uma forma de relembrar a nossa história.

Também conhecido como Pérola Negra e Negro Gato, Melodia herdou o sobrenome e o sangue do importante sambista Oswaldo Melodia., e continuo a escrever a história de sua família com muito soul e samba.

Zerima marcou os 40 anos de carreira de Luiz. Dono de uma voz suave e firme, o cantor coloca nesse disco novos respiros e nomes. A segunda faixa desse trabalho por exemplo, “Dor de Carnaval”, tem participação de Céu. Além disso, Mahal Reis, filho do artista, participa de “Maracangalha”, o encontro entre o samba e o hip hop.
Cantar o desejo e ter esperança: marcas das canções de Luiz Melodia. Em “Cheia de Graça”, faixa que abre Zerima, o cantor lembra que “o desejo é fera que devora”, mas também é fera que transforma, é o que nos move a novas perspectivas.

Esse motor encontra espaço no cinema de Eduardo Coutinho. O cineasta faleceu em 2014, deixando Últimas Conversas como despedida. O filme foi finalizado por grandes nomes do cinema brasileiro como Jordana Berg e João Moreira Salles. Em entrevista a Trip Tv, Jordana comenta a potencialidade desse documentário, além de sublinhar o tempo que trabalhou com o cineasta.

Coutinho entrevistou jovens estudantes da rede pública do Rio de Janeiro. Os adolescentes dizem dos seus anseios e desejos, de momentos ruins e desconfortáveis; o filme retrata os abismos existentes no Brasil. O choro e o riso fazem parte dessa história.

Sempre investigativo, Eduardo Coutinho, virá personagem de seu próprio filme. Articula pensamentos e deixa espaço para escutar o outro. Seu método de trabalho consistia em valorizar o que há de inédito nas visitas. Sem ensaio, sem preparo prévio, as falas e as conversas ali registradas são de um único e singular encontro. Coutinho sabia dar lugar as boas histórias.

Nada é preto no branco, descobrimos isso olhando para trás e vendo o que já se passou. Melodia traz a beleza e a leveza e Coutinho a conversa e a escuta. Enxergar verdade e sinceridade nos trabalhos aqui apresentados não é uma tarefa difícil. Cada um a sua maneira, transparecia o que está refletido nos nossos dias: gente.

Em tempos onde a escuta parece entupida e a educação sucateada é imprescindível olhar para o passado em busca de alguma alegria, de alguma força para enfrentar o que nos espera. A cultura brasileira continua nos dando pistas de como seguir.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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