ENTREVISTA

ENTREVISTA: Edgard Felipe aponta suas percepções acerca da música

O músico brasiliense destaca a importância da criação

Cercado por música desde a infância, Edgard Felipe (entre suas atuações musicais estão diversos trabalhos instrumentais como REC e Pulpa além de sua atuação como sócio do selo Gris Records) começou a experimentar suas primeiras colagens musicais, em um brinquedo chamado “meu pequeno gradiente”, ainda muito cedo. Hoje o musicista desenvolve uma pesquisa de doutorado, na Universidade Nova de Lisboa, a cerca de fatores que inibem ou fomentam a criatividade, da comunidade praticante de música improvisada em Portugal.

Em entrevista exclusiva para a Escuta, o brasiliense aponta alguns pensamentos e construções sobre a música improvisada, relata suas percepções e desenvolve suas linhas de raciocínio a respeito da arte feita na contemporaneidade e sublinha questões importantes para pensarmos em aspectos como validação e valor da música.

“O valor da música tá na cabeça de quem tá ouvindo a música. Quando você toca um som, foda-se a intenção do compositor, aquilo já é do mundo e de quem ouvir, e quem ouvir vai interpretar aquilo a partir do próprio background”.

Além disso, Edgard confronta certas imposições acadêmicas sobre aspectos sonoros e ressalta a importância de olhar para os contextos dos indivíduos – o músico destaca que estamos todos cercados por sons constantemente. “Eu não tenho muito interesse em ter uma voz. Eu tenho interesse em dialogar com as pessoas. Todo mundo cresce na sociedade com um cenário sonoro. Vai ser eu que vai chegar e falar ‘oh, vou por um som aqui pra você, que não dialoga com a sua existência, e esse é o melhor de todos os sons’? Não.”

Como você enxergar a criação dentro do mundo contemporâneo?

Criação pode ser tanto o produto, quanto atividade – a atividade de criação e/ou o que surgiu da criação. A academia musical vê muito a música como produto e menos como processo, tradicionalmente. Quando você vê a música como processo é algo muito mais complexo.
Eu vejo que a atividade da criação talvez seja um dos caminhos mais claros para salvação da humanidade, e ao mesmo tempo, é uma das coisas mais restringidas pela nossa forma de transmissão de informação, especialmente, smartphone e redes sociais. Porque para você criar, você precisa de uma imersão, e você não consegue ter essa imersão a partir do momento que sua atenção é todo tempo roubada, pelo WhatsApp, por uma notificação do Facebook. E implicações maiores, de você estar o tempo todo nesse ambiente que se apresenta como neutro e democrático, mas na verdade, tem toda uma forma de trabalhar em prol de quem está financiando isso. Eu quero achar alternativas para tornar a criatividade sustentável.

De que forma a espontaneidade/intuição corrobora para um pensamento criativo?

Não acredito que exista uma espontaneidade sem condicionamento prévio. Não há algo que “vem do nada”. Somos sempre influenciados pelo nosso passado quando criamos, por mais que tentemos nos abster dele. Aí que entra a beleza da intuição.
Eu gosto de utilizar o conceito de intuição me referindo à intenção de reagir ao meio com menos atividade consciente, mas sem buscar reprimir o subconsciente. Ou seja, deixar as influências, o passado, fluírem para o presente, condicionados por uma inevitável expectativa do futuro.
Quando improvisamos livremente com uma outra pessoa, o resultado sonoro é a materialização de um processo interativo de trocas não só de passados, mas de futuros. A intuição não está presente apenas no pensamento criativo de quem toca. Quando ouvimos música utilizamos a intuição e o pensamento criativo. Por isso a importância de se sustentar a diversidade cultural. Todos temos diversos passados, que são em parte compartilhados socialmente e ao mesmo tempo são peculiares em cada indivíduo.

A troca de experiências simbólicas é, ainda, uma necessidade biológica de sobrevivência humana, que nos presenteia com flexibilidade e adaptabilidade notáveis em relação ao nosso ambiente e a outros indivíduos e grupos.

Se deixarmos nossas intuições fluírem mais enquanto praticamos mais atividades culturais, como ouvir música, tocar um instrumento, dançar, escrever, atuar, teremos garantidos o nosso direito a uma cultura individual que participa ativamente em uma cultura compartilhada socialmente. Deixar a intuição fluir é ser criativo, e garante que seu passado e sua visão do futuro se materializem no presente e se misture com outros passados e visões de futuro, promovendo a diversidade cultural.

Você vê alguma diferença mais sistemática entre a música improvisada aqui em Brasília e lá em Portugal?

Aqui em Brasília, não só a música improvisada, mas qualquer música, qualquer arte é uma coisa atípica. Você tem o plano piloto, que é um centro de concentração de riqueza fudido, que não tem uma infraestrutura maneira para fazer as coisas culturais fluírem como poderiam. Você tem as cidades satélites, que são extremamente segregadas do Plano Piloto, em termos estruturais mesmo. Em Lisboa não, você pega um trem e tá na puta que pariu, com muito pouco, com muita comodidade. Muito mais integrado. É muito diferente, mas tem umas similaridades. Música improvisada em todos os lugares é de difícil degustação. Essa é uma coisa que me interessa muito. Dialoga com a minha ideia de produzir música improvisada de mais fácil degustação.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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