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ENTREVISTA: Afetividade inscrita na música de Lucas Estrela

Em conversa exclusiva o músico ressalta aspectos importantes de seu caminho

A arte é uma intrigante e interessante forma de conhecimento. Há inúmeras possibilidades de aprendizagem. Seja por parte do artista ou de quem acessa seu trabalho. Para dizer isso preciso acessar minha subjetividade, minha fala em primeira pessoa. Lembro da primeira vez que ouvi a música de Lucas Estrela. Foi em 2017. Farol tinha acabado de ser lançado. Me dei conta de que nunca tinha explorado a música feita no Pará. Lucas me fez ter vontade de conhecer mais, de estudar, de ouvir, de ler, de ver o Pará.

O trabalho artístico não acaba quando a obra é finalizada, ele segue o seu caminho. Independente de quem o projetou, ele continuar dando trabalho e espaço para outras pessoas, ou seja, ele intriga outras mentes, outras realidades e vivências.

Lucas Estrela parece muito consciente desse desenrolar.

Inserido no universo musical desde criança segue alimentando sua curiosidade pelos sons. Encantado por arte sonora e por circuitos eletrônicos busca compartilhar o que aprendeu. É uma forma de dar continuidade ao conhecimento.

O músico faz questão de sublinhar a importância dos que vieram antes dele. E carrega com muito carinho aqueles que contribuíram para o crescimento do seu trabalho. A fim de conhecer mais sobre o percurso desse artista bati um papo com ele. E convido a todos a entrarem em contato com a simplicidade e a honestidade de Lucas Estrela.

Você começou a estudar música aos 12 anos, tocando violão clássico e depois mudando para o contrabaixo, e lá em Sal ou Moscou (2016) colocou no mundo sua leitura da guitarrada. Como foi o percurso de descobrir o que te interessava tocar? Por que fazer música instrumental?

Na verdade, comecei a estudar música um pouco antes, com uns 8 anos. Sempre fui muito curioso com instrumentos musicais, passei por alguns antes da guitarra, não só o contrabaixo, mas já estudei flauta transversal, trompete, percussão. Isso sempre me interessou muito. E a guitarra sempre estava ali caminhando junto. No trio Enquadro foi quando conheci Pio Lobato. Eu devia ter uns 16 anos, na época. Tem um disco do Pio chamado Tecnoguitarradas (2007) que mudou a minha vida.

Foi um divisor de águas. Porque eu comecei a entender a música instrumental de outra forma.

Essa vontade de tocar música instrumental talvez tenha começado lá nos meus primeiros contatos com violão, nos meus primeiros estudos, porque era um repertório totalmente instrumental. Uma coisa que contribuiu muito foi essa minha curiosidade não só pelos instrumentos, mas também pelas máquinas. Lembro que quando ganhei meu primeiro computador a primeira coisa foi ir atrás de softwares e programas de produção musical, para entender como funcionava. E hoje em dia é o que eu mais amo fazer além de tocar. Acho que é a atividade que eu mais faço no dia é produzir música. Eu amo fazer isso. Às vezes até mais que show, turnê, porque quando tá fluindo, isso te prende de uma forma tão boa.

Em 2015 você fez uma exposição individual em Belém. Como foi, na época, conceber isso? Como foi construir essa exposição? Você pensa em se lançar novamente nesse diálogo com as artes visuais?

Sim, em 2015 fiz a exposição Arboreal, que eu acho que foi o primeiro trabalho grande, digamos assim, que eu fiz. Era um filme, um média metragem de 45 minutos, onde eu tocava a trilha ao vivo, essa era a obra principal. Todas as obras foram voltadas para arte sonora. Construí alguns instrumentos, onde as pessoas podiam tocar, instrumentos experimentais e eletrônicos, tinham outras obras onde eu compus a trilha, baseada em alguma fotografia ou vídeo. A ideia principal era que fosse uma exposição interativa, que o público pudesse colaborar com a exposição. A exposição foi o primeiro trabalho onde eu estava à frente, com o meu nome, como o artista. Com certeza penso em repetir isso. Inclusive o próximo disco vem com um pouco dessa linguagem visual. Penso no show desse novo disco como se fosse um live audiovisual onde você tem o músico tocando e um vj fazendo as projeções ao mesmo tempo.

Então todo esse conhecimento que fui adquirindo ao longo dos anos, de maneira autodidata, eu tenho uma vontade muito grande de passar isso para as pessoas.

Há quatro anos eu dou uma oficina de circuitos eletrônicos aqui [em Belém]. Depois que eu fiz a exposição percebi que tinha um interesse muito grande das pessoas com relação a isso, a música experimental, a arte sonora, as diferentes linguagens. Resolvi compartilhar isso, fiz uma primeira oficina dentro da programação da exposição. No outro ano fiz outra maior. Depois fui convidado para fazer em um festival daqui e em Fortaleza. Daí isso foi crescendo, e hoje é algo que eu vejo, como também, uma das minhas principais atividades, quando estou fora do palco, quando eu não estou pensando em música, estou pensando em circuitos eletrônicos, em música eletrônica, experimental, estou pensando em quando vai ser a próxima oficina. Inclusive, acho que vai ter uma em julho agora, pela primeira vez em Recife, estou fechando isso agora. Dessa primeira exposição eu consegui dar continuidade a esse trabalho através das oficinas.

Felipe Cordeiro assinou a direção artística de Farol, e em entrevistas para outros veículos você já evidenciou a importância da família Cordeiro na sua trajetória. Seus próximos trabalhos devem seguir esse desenrolar feito em conjunto com pessoas que tem influenciaram/influenciam?

Sim, acho que sim. O próximo trabalho vem com algumas colaborações, inclusive com outros produtores de fora. Felipe é um grande amigo. A gente se conheceu jogando vídeo game, já tem muitos anos isso, uns dez anos ou mais até. E só depois a gente foi se encontrar nos palcos e tocar. Depois conheci Manoel, que é aquela figura icônica do Pará, muito querido por todos. Sem dúvidas eles são duas pessoas muito importantes. Felipe sempre me ajudou, me incentivou muito, desde o início. Tem uma música nova que eu quero fazer com ele. Só fiz o convite, ainda não gravamos nada, só falei ‘olha, tem uma música nova que eu quero gravar contigo’. Devemos gravar entre agosto e setembro. Quero terminar o disco até outubro no Rock In Rio. Talvez fazer o lançamento um ou dois meses depois, lá para novembro.

Se você pudesse interpretar uma música com Mestre Vieira e Pio Lobato, qual seria? Assim, qualquer música do mundo!

Uma vez eu tava com o Pio e o Felipe, e uma equipe do Rio de Janeiro, gravando um documentário aqui em Belém, um documentário chamado Sotaque Elétrico, que já foi até lançado. Fomos na casa do Mestre Vieira, gravar com ele, em Barcarena, e a gente tava muito ansioso por esse encontro, porque fazia muito tempo que a gente não via o Mestre. Chegando lá pegamos as guitarras do Vieira. Toquei em uma guitarra dele, foi muito emocionante. Daí ele perguntou ‘o que a gente vai tocar?’ e na hora ele puxou Jamaicana, que é uma música dele, que é um tema clássico da guitarrada, talvez a guitarrada mais clássica, que é de 1982, tá no quarto disco do Mestre Vieira. E foi um momento muito emocionante pra mim, eu pude tocar com ele. Depois eu mostrei uma música minha e do Pio, 2×2, que está no meu primeiro disco, e ele gostou. Ouviu a música muito atento, fazendo uns comentários no meio, que eu achei aquilo incrível. Fiquei realmente muito feliz. E não sei, talvez não tenha nenhuma outra música que eu queria tocar, senão essa dele, Jamaicana, que eu tive a oportunidade tocar. Foi muito bonito.

Em 2011, a Guitarrada foi declarada como Patrimônio Cultural Paraense. Para você, enquanto músico, quais as responsabilidades de trabalhar e desenvolver sonoridades que partem (ou passam) por um patrimônio cultural não-material?

No mês passado, estava gravando com Felipe um documentário que ele está apresentado, e ele fez uma pergunta pra mim, que na hora eu nem soube muito bem explicar. Ele perguntou como eu me sentia sendo um dos artistas mais jovens da minha geração que tá, digamos assim, sendo uma referência. Não vejo dessa forma, eu não sei se eu posso dizer: ‘sou uma referência nisso’. Não sou, mas eu sinto que a gente tá dando continuidade ao legado dos grandes mestres. Mestre Vieira sem dúvida, se não fosse por ele a gente não estaria aqui, não estaria fazendo isso que a gente faz hoje. Eu, Felipe, Pio Lobato, Félix Robatto. Mas eu tento não pensar muito nisso, até porque, quando a gente fala de música tradicional, é claro que existe um respeito muito grande por isso, aí você tem que entender todas as pessoas vieram antes de você pra isso seja possível hoje. Mestre Vieira é o mais importante, eu só estou tentando dar continuidade a esse trabalho dele, assim como meus amigos. Aí você tem que entender todas as pessoas vieram antes de você pra que isso seja possível hoje e que isso tem um certo limite. Chega um momento que você precisa trilhar o seu próprio caminho. Tenho um respeito muito grande por toda cultura tradicional brasileira, admiro muito os artistas que tem essa base e que depois disso partem para algo com a sua própria linguagem, seja algo mais moderno, mais eletrônico ou mais experimental. É o que eu tento fazer no meu trabalho. Por isso que às vezes me perguntam ‘ah, mas é guitarrada? É outra coisa?’, e é guitarrada, tem grande parte da guitarrada ali, mas também não é só guitarrada. Inclusive, esse disco do Pio Lobato que falei, o Tecno Guitarradas, pra mim é um disco tão bom, tão importante, que eu comecei a usar a usar esse termo ‘Tecno Guitarrada’ pra tentar explicar um pouco o que era aquilo que eu estava fazendo no início. Hoje em dia, quando alguém me pergunta eu digo que é Tecno Guitarrada pra deixar mais livre a interpretação, porque quando você usa o termo guitarrada ou carimbó, você tá restrito aquele gênero, e eu acho que como a gente é tão plural, e tá tão aberto a transformações e mudanças, acho que seria pouco errado eu usar o termo guitarrada, se eu tivesse fazendo outra coisa. Então essa é uma tentativa de ampliar um pouco mais o gênero.

Dona Onete vai subir no palco Sunset do Rock In Rio, em setembro, com você, Fafá de Belém, Gaby Amarantos e Jaloo. Quais são as suas expectativas para esse Pará Pop?

Muita expectativa, isso representa muita coisa. É um show da música paraense, é um show coletivo. Eu acho que a música do Pará, na verdade, não só a música, todas as linguagens artísticas paraenses, são exatamente assim, são de maneira coletiva. Acho que pelo fato de estarmos muito afastados desse centro São Paulo-Rio, acabamos desenvolvendo a nossa própria forma de produzir, a nossa própria forma de trabalhar e de se divulgar. A aparelhagem de tecno brega é o maior exemplo disso. É uma indústria, não é só a música, não é só uma festa de aparelhagem, é toda uma indústria por volta, um mercado que se formou. E que a gente tem que aprender muito como isso é feito, porque são coisas grandiosas. É um mercado que consegue se gerir sozinho, isso é incrível nos dias de hoje. Como um artista independente eu nunca pensei que eu fosse chegar em um palco do RIR. Eu estou realizando um sonho, mas não só isso. Eu sinto que é como se eu tivesse, talvez, abrindo as portas para outras pessoas que estão vindo depois de mim, uma nova geração que está vindo, uma nova geração que vai produzir música paraense. Isso que é o mais legal de tudo. Eu vejo que a música do Pará tem muita coisa para oferecer pro Brasil. Não só os artistas que despontaram e que estão despontando agora, tem muita gente.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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