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ENTREVISTA! Conheça Thalles, o cara que faz um indie rock meio triste

O cantor gaúcho lançou clipe novo nesta semana e protagoniza o filme "Yonlu". Leia a exclusiva para ESCUTA

Este final de agosto parece ser um ótimo período para o Thalles, gaúcho de 24 anos e morador de São Paulo, outrora conhecido como “o cara que faz um folk meio triste”. Hoje, o selo de indie rock corresponde melhor ao som do moço desde o disco de estreia, “Utopia” (2017). Nesta semana (21/8), ele lançou o [ótimo] clipe para o terceiro single, “Just When We Were High”. Além disso, ele estrela o longa “Yonlu” (de Hique Montanari), sobre a história do músico prodígio que viveu seu auge e o trágico fim na internet. O filme chega aos cinemas independentes no dia 30.

Thalles surgiu na música lá em 2013, com o single acústico e orgânico “Everybody Dies”. Talvez você se lembre dele como o filho do Félix na novela “Amor à Vida”. Só que desde o EP de estreia “That’s What We Were Made For” naquele mesmo ano, chega a ser uma covardia resumir o talento e a visão artística do rapaz ao personagem. Cada vez mais instrumentado e confiante, ele tem potencial de sobra para ser uma das maiores referências do indie nacional. Talvez até internacional: em maio, abriu o show para do Simple Plan em Porto Alegre.

Embora tenha citado Arcade Fire, Lorde e Florence + The Machine como referências para o primeiro disco, é um ar meio The Smiths que paira nas 11 faixas. A maioria delas, baladas que convidam a conhecer a Utopia do cantor; segundo ele, a ideia tem a ver com empatia e a forma de cada um enxergar as ideias dos outros. Funciona muito bem, já que a influência da Lorde talvez esteja na forma como ele descreve a melancolia da atual geração de sad boys/girls, a qual representa muito bem. Temas como solidão, ser incompreendido, amores frustrados e juventude são recorrentes no repertório do cantor.

Vale lembrar que o cara continua apostando na carreira de ator e também atua nos bastidores como diretor e roteirista. Não é à toa o toque artístico e minucioso de cada clipe. O clipe mais recente, recheado de referências a clássicos cinematográficos cult como “Os Sonhadores” (vide a thumbnail do YouTube), “Clube dos Cinco” e é só mais um exemplo do olhar cuidadoso que ele tem ao levar a arte musical para além das barreiras dos fones de ouvido. Em “You, The Ocean and Me”, brinca com metáforas visuais sobre água e saudade. Já o de “Sad Boys Club”, bom… É difícil dar uma interpretação exata. Esse, eu deixo ele explicar.

Você confere abaixo a entrevista exclusiva para a ESCUTA:

Você lembra das suas primeiras composições?
Lembro! Tenho mania de registrar tudo. Vai que algum dia serve, né? A primeira de todas se chamava “Lost”, e era sobre um garoto perdido numa cidade. Já era em inglês, mas a letra era muito engraçada e simples. Acho que tinha umas duas estrofes que se repetiam incessantemente. Quando tiro [os acordes] no violão e acabo de perceber algo ali, já gravo, boto tudo num HD, porque, se quiser trabalhar em cima, já tenho.

Como iniciou sua relação com a música?
Comecei fazendo aula de violão quando tinha 11 anos. Tinha aula particular em casa e depois na escola, então passava o dia inteiro. Minha relação com a música começou ali. Sempre escutei muita música, não faço absolutamente nada sem, e algumas das minhas influências vieram com meus pais. Meu pai escutava Jorge Drexler, Dido, minha mãe escutava Elvis e eu adorava. Por influência deles, certamente, essa relação foi ficando cada vez mais forte. Fui descobrindo esse lado autoral. Eu ia para a aula de música e ficava esperando ansiosamente pelo dia em que teria aulas de composição. Essas aulas nunca chegaram e eu comecei em casa a compor sozinho, sem saber de nada, era um processo muito intuitivo. Não entendia nada de técnica e estrutura.

O que mudou do seu primeiro EP em 2013 para o disco?
Acho que algumas referências musicais que foram surgindo depois, mas o universo é um pouco parecido. A mudança mais forte é a experiência que fui ganhando nesse tempo. Comecei a trabalhar no disco em 2016, então, nesses três anos, fui fazendo shows e entendendo como aquelas músicas chegavam ao público, como era tocar isso ao vivo e, de repente, ter gente ali cantando, se identificando com as músicas, e fui ganhando mais autonomia no trabalho. A direção artística do “Utopia” é minha. A produção, do Edu Malta, que tinha trabalhado comigo no EP, e foi muito bom. Já nos conhecíamos e entendíamos as referências um do outro, foi um processo bem legal. Fiz shows, li muita coisa nesse meio tempo, literatura me influencia muito, e o que estou assistindo no momento, ouvindo, e isso acabou vazando nas letras.

Mateus Aguiar/Divulgação
(foto: Mateus Aguiar/Divulgação)

Qual é a sua utopia?
Minha utopia é um lugar onde as pessoas se respeitem mais e tenham empatia pelo outro. As pessoas entenderiam mais as escolhas, decisões, discursos das outras, não teria tanto julgamento. Aceitariam as outras como elas são e cada um poderia viver sua vida como acha que deve ser.

Você lida com a melancolia das suas músicas no dia a dia? Acha que realmente faria parte de um Sad Boys Club?
(Risos) Acho que a melancolia é presente na minha personalidade, mas sou bastante extrovertido. Acho que ela está presente de uma maneira bem sutil, aparece mais quando vou criar alguma coisa, na parte artística, noto que isso fica mais em evidência. Não só acho como fundei um Sad Boys Club. (Risos) Escrevi essa música pensando que tem uma parcela dessa geração que com certeza faria parte desse clube. Não que eu seja isso 24 horas, acho que todo mundo tem suas recaídas. Meus amigos falam que estou o tempo todo fazendo piada com as coisas. Se ninguém me impedir, viro quase o tiozinho do pavê.

“Sad Boys Club” deixa espaço para várias interpretações. Qual foi a inspiração para o clipe?
Eu queria falar sobre se sentir num ciclo vicioso, preso num lugar, dando voltas e voltas e não sair dali. Também dessa questão da briga com a própria mente, os pensamentos, essa guerra que se trava entre o interno e o externo. Claro, deixa espaço e isso é proposital. Já escutei várias teorias e análises e isso é muito legal, porque para você ter uma interpretação, você pega a bagagem do seu repertório e das coisas que viveu, e isso influencia muito. Acho demais quando isso acontece, de não fechar uma porta, e sim abrir várias.

O que você tem escutado? Pode deixar recomendações de artistas para ficarmos de olho?
Tenho escutado muito o disco novo da Florence + The Machine, o novo do Caetano com os filhos. Uma banda do Rio chamada Carmen, acho o som muito legal. O novo da Elza Soares, baita disco. Um que estou escutando demais é o novo do Father John Misty, me identifico muito.

O projeto de criar um clipe para todas as músicas do álbum ainda está de pé?
Sim. Gosto de misturar, para mim, tudo é arte. Adoro experimentar, dirigir, roteirizar, produzir, cantar, então, para mim, os videoclipes são uma extensão do universo, da atmosfera que eu crio nas músicas. O projeto continua de pé. Dos três lançados, “Just When We Were High” é o mais experimental.

Já trabalha no sucessor de “Utopia” ou em algum filme?
Trabalhei agora num longa, terminou de rodar no início de agosto. É o segundo longa do Iberê Carvalho, diretor de Brasília. O primeiro filme dele foi “O Último Cine Drive-In”, e o segundo chama-se “O Homem Cordial”, que é protagonizado pelo Paulo Miklos e é um filmaço. Um roteiro muito atual e que vai gerar muitas questões e debates. É um filme bem político. Ainda não comecei a trabalhar num sucessor de Utopia efetivamente, de ir para estúdio e pensar em arranjos. Já tenho todas as músicas do novo disco, título, já sei o conceito todo do álbum, e estou trabalhando nas letras. Vou esperar terminar toda a promoção visual do Utopia para começar a trabalhar, de fato, no segundo.

Pode deixar um convite para os leitores assistirem “Yonlu”?
Convido a todos a assistirem Yonlu. É diferente de tudo que você já assistiu no cinema brasileiro. É um filme bem sensorial, que trata de um assunto bem delicado, mas de uma maneira sensível, alegórica, simbólica, metafórica e muito bonita. Tenho certeza que você não vai sair indiferente.

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Hebert Madeira

Jornalista que adora música e queria ser VJ da Mtv. Veio parar no Escuta e colabora com ideias sobre pop alternativo e indie rock. Sempre ligado na cultura pop, também fotografa, curte coisas vintage, ocultismo e não dispensa uma pizza. Emo sobrevivente em 2018.

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