DIÁLOGOS

Falta fé, cresce o ódio, assim vive o ser humano

Há um engasgo que precisa ser desfeito

Os dias começam com informações nebulosas e asfixiantes. O assombro evocado por imagens que mal consigo ver se assemelha ao medo diário de uma morte quase iminente.

Há um cansaço que não saí do corpo. Passem os dias como for, o mesmo cansaço continua a inundar e a ocupar espaço.
Os dias anunciam a face desonesta de um País que se surpreende com uma notícia absurda hoje, mas amanhã… amanhã nada. Amanhã é outro dia. Amanhã é dia de branco.

No Brasil, mais um dia nasce. Mais um dia onde o racismo anuncia mais um episódio de violência. Criança na periferia vive sem estudo e só. Final dos tempos está se aproximando. Falta fé, cresce o ódio, assim vive o ser humano. (canão foi tão bom)

Nasce mais um dia comum, como se a notícia de que um jovem foi chicoteado por roubar uma barra de chocolate fosse só mais uma notícia. Nada muda. A vida é uma grande linha horizontal onde basta merecer. Basta se dar valor, basta estudar, “se eu cheguei aqui foi porque eu mereci”.

Aqui o inimigo é neutro. (respeito é lei)

O Brasil contemporâneo se alimenta da meritocracia legitimada pelo desgoverno vigente. O homem de bem assina embaixo quando a manchete diz que um jovem [negro e pobre] foi chicoteado por ter roubado uma barra de chocolate. O homem de bem estampa em suas redes o bom serviço executado. Talvez considere que foi pouco. A crueldade do homem de bem nunca está saciada.

Enquanto falta tudo, a fome a cada dia faz um ser pro crime. (o gatilho) Enquanto tudo falta, as estatísticas aumentam. Aumenta a fome, o número de moradores de rua, o número de analfabetos… Enquanto falta tudo, a ciência do País morre, os jovens negros morrem, as mulheres morrem e continuamos liderando o ranking de país que mais mata transexuais.

Uma tragédia puxa outra. Esse é o atual roteiro dos nossos dias. Acordar e se deparar com algo que corta o seu ar. A dificuldade de respirar está instalada. A vida está comprometida.

Um jovem, cujo nome não interessa a imprensa, foi chicoteado por dois seguranças de uma rede de supermercados, na Zona Sul do Estado de São Paulo, em julho desse ano. As imagens da agressão só foram apresentadas dois meses depois. Depois que o homem inventou o revólver todos corremos perigo. Onde o preto é bandido, o playboy queima índio e esbanja o prazer.(mosquito)

Quanto tempo é preciso para que uma voz deixe de ser ignorada?

Quanto tempo ainda nos resta?

*na construção desse texto manifesto foram utilizados alguns versos do disco póstumo de Sabotage, lançado em 2016. A canções aqui referencializadas, respectivamente, foram: “Canão foi tão bom”, “Respeito é lei”, “O gatilho” e “Mosquito”.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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