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Imagem e som em Juçara Marçal e Décio Pignatari

Um encontro proporcionado pela palavra

Entre as artes e as letras um encontro frutífero surge: as imagens que se apresentam dentro da extensa obra de Décio Pignatari convergem com os desdobramentos da linguagem desenvolvidos por Juçara Marçal. No trabalho dos dois artistas a palavra abre espaço para as possibilidades da imagem, seja em um campo mais imagético ou concreto. Na poesia ou na música, a formação de imagens se dá a partir da reverberação do som.

A trajetória de Décio Pignatari ficou marcada por sua atuação dentro do Concretismo (importante movimento artístico da década de 50; buscando não fazer distinção entre forma e conteúdo, uma das questões do movimento foi a criação de uma nova linguagem), mas é crucial lembrar que o artista desenvolveu trabalhos muito relevantes na produção sonora (como a paródia de um jingle intitulado “Brazil, my mother”; a composição de Rogério Drupat, traz uma crítica ao imperialismo norte-americano na cultura brasileira), no desenho (na série “Oswald psicografado” Décio elabora uma escrita-desenho para homenagear Oswaldo de Andrade), além de se valer da serigrafia e da colagem.

Foto: Vilma Slomp

O “abuso” de suportes e materiais dizem da vasta atuação e da expressão de Pignatari. A linguagem vai sendo desembrulhada, ganhando força no ato de decompor, sendo assim, atingindo diferentes pessoas e meios, questionando as potencialidades da linguagem e sua capacidade de se dar por imagem.

Foto: Sérgio Aires

Muito conhecida por seu trabalho como vocalista do trio Metá Metá, a professora de Canto no curso de Teatro da Universidade Anhembi Morumbi, também compõe o coletivo A Barca e participa do Vésper Vocal. Além de um interessante trabalho como intérprete, Juçara explora, na composição, outras cenas.

Olhando para o premiado Encarnado (2014), primeiro disco da cantora, vemos composições detalhadas. A primeira faixa do álbum, “Velho Amarelo”, constrói um corpo, “Um velho amarelo/ Com três guerras no peito”; já em “Pena Mais Que Perfeita”, uma cena cinematográfica inunda os ouvidos, “Essa pena é mais que perfeita/ Ela traça todas as lembranças/ E na pele moura ela ferve numa contradança”.

Seja em Décio ou em Juçara, a palavra está em destaque para apresentar outras sensações e interferências.

Um “encontro” mais recente entre esses dois grandes e importantes nomes da cultura brasileira se deu em Besta Fera, o novíssimo disco de inéditas de Jards Macalé. Em “Trevas”, o compositor entrelaçou um poema de Ezra Pound a letra (o poema em questão foi traduzido por Pignatari e os irmãos Campos). Em “Peixe” é Juçara quem o acompanha – curioso notar que os nomes dados as faixas de Besta Fera carregam substantivos muito imagéticos.

Os desdobramentos vocais e sonoros abarcam questões muito mais complexas dos que as que foram apresentadas. Esse diálogo é apenas uma porta.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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