subterrâneo

Malena Stefano lança álbum de noise romântico e espiritual no bar da 705 norte

O bar se chama simplesmente “705 Norte”. Adivinha onde fica? Exatamente: na quadra homônima do Plano Piloto. Duas ou três dúzias de jovens alternativos aguardam o show do lado de fora, espalhados pela praça e pelas calçadas, aglomerados em pequenos grupos unidos por cigarros e biritas de variados tipos quando, perto das 22h, surge Rafael Lamim, o carinha do Enema Noise que está na produção do rolê: “Galera, Já vai começar. Tivemos alguns problemas mas demos um jeito. Ligamos tudo nos amps! Quem quiser, é só chegar, ela vai começar agora!”

Atravessando a varanda com algumas poucas mesas e o pequeno espaço do bar, descendo as escadas cujo piso é idêntico ao da rodoviária, chega-se ao subsolo baixo, escuro e pequeno, com encanamentos à vista e paredes de cor escura. A sinuca fora posta de lado e transformara-se num confortável acento de feltro verde. Algumas pessoas estavam em pé, outras sentadas em cadeiras de plástico e a maior parte delas sentada no chão, aos pés do altar.

No centro do palco, com uma sandália de salto 15 preta, vestido curto de veludo azul escuro e uma gigantesca rosa vermelha nas mãos está Malena Stefano, a estrela do rolê desta sexta à noite (7 de dezembro). Ela está lançando o seu primeiro álbum, Sentimental, sob o selo ANTINATURAL, composto e cantado por ela e mixado pelo Lamim. Raios, relâmpagos e tempestades são projetados sobre camadas de tecido de pano de faixa verde-fluorescente, no fundo do palco, e é isso. De vez em quando o vídeo em looping acaba e a tela minimiza, e então se vê projetada a tela do computador. Não se sabe se esse efeito é proposital, assumido ou inevitável, mas ele combina perfeitamente com a atmosfera.

Diante de um computador com a tela quebrada, ligado em um dos amplificadores, Malena se agacha elegantemente e solta o beat. Faz alguns ajustes no pedal de delay analógico, ao qual está ligado o microfone, plugado em outro amplificador, levanta-se devagar e, desfilando pelo palco com movimentos suaves, estudados, sussurra ou murmura, com a voz distorcida, uma prece ou um mantra. Após diversas camadas de repetições, a mente se abre e capta a mensagem soterrada pelos ruídos delicados: “Nobody can understand me… Ninguém pode me entender… Ninguém pode me entender… Ninguém pode me entender

“Eu gosto disso porque o noise não é pra ser de fácil acesso – entre eu e o meu público também. Tem que ter uma barreira, tem que ter uma coisa”, explica Malena. Ela pega seu microfone distorcido, aponta-o para o âmago do auto falante e ouve-se o grito estridente do amplificador. Todos aplaudem efusivamente, pois o som não poderia ser mais perfeito diante da paisagem sonora. “…e aí eu brinco com isso, por exemplo, com a microfonia. Tipo: daqui eu não posso passar. Vocês vão ter que me ver daqui, porque se eu passar vai ser isso aqui que vai acontecer”, comenta. 

Tirando esse pequeno arroubo, a performance, como a música, é contida, tímida, minimalista, lo-fi, quase shoegazer. Nada dos arrebatamentos e derramamentos que o público geralmente espera de uma apresentação desse tipo. Malena sente-se feliz em frustrar tais intenções. “Eu tava me propondo a fazer isso mesmo. Brincar um pouco com essa coisa do noise jogando elementos mais delicados e femininos, eu diria, pra poder quebrar um pouco essa parada mesmo do que é intenso”, afirma. 

Transitandoentre o noise e o new age, Malena passa, no caminho, pelas agruras da alma e astormentas do coração. “O álbum se chama Sentimental porque era uma encruzilhada de sentimentos pradiferentes pessoas, diferentes coisas”, confidencia. Das dez faixas dodisco, quatro se chamam sentimental (sentimental 1, 2, 3 e 4). “Não tinhacomo nomear, não tinha como entender na minha cabeça”, revela, reforçandoo conceito de incompreensão do álbum. “Não fica claro o que tou querendodizer, nem mesmo pra mim”.

foto: Gatito Chan

Malena se declara romântica e, entre suas referências, cita Genesis P-Orridge e música italiana, que tem escutado muito ultimamente. Italiana também é a ascendência e o nome de Malena, o que talvez atavicamente se reflita na postura neomadona (citando Fausto Fawcet, que ela também adora), neorromântica, neomalena e neodiva que a compositora traz em seu disco e em sua performance. 

Sua iniciação musical se deu através de sua mãe, organista da Congregação Cristã no Brasil (a igreja do véu), e foi ela que lhe ensinou os primeiros e únicos rudimentos da teoria musical. “Eu vejo muito da minha mãe na minha performance. Eu poderia estar ali, com um véu, tocando o órgão”, divaga. Malena ainda traz consigo essa relação espiritual e sagrada com a música, explorando diversas religiões em seus sons, temas e na vida. Um caso simbólico dessa relação é o EP Exercícios Espirituais, de Julho deste mesmo ano, produzido quando Malena jejuou durante o Ramadã.

É justamente um álbum ruidoso, espiritual e romântico que te espera no Bandcamp. Entre ruídos e sons transcendentais, Malena vocaliza coisas do tipo “Será que finalmente eu encontrei o amor?”, e outros versículos sobre as “dores que você tem que carregar, exageros que você comete, culpa, levitar acima da culpa, talvez”, nas palavras dela. Tudo copiado, recortado e colado no Fruity Loops (FL Studio, um popular software de fabricação de música). “Acho que eu vi um tutorial de dez minutos, uma vez só na minha vida, e o resto eu fui mexendo mesmo”, conta a beat-maker. 

foto: Gatito Chan

“É um processo bem louco. Às vezes vou no Youtube, pego uma coisa muito aleatória, baixo o mp3, recorto, e ninguém sabe da onde veio o sample”, descreve a compositora, que tem essa tara de apagar as referências. “Gosto dessa lombra do álbum ter muitos samples irreconhecíveis, aproveitar esse excesso de informação que tem e transformar e retransformar e retransformar e transformar”, descreve. “Esse álbum, pra mim, é um exercício de corta/cola/destrói/destrói/destrói”. “É uma gambiarra mesmo. É muito esquisito”.

A faixa Intro, por exemplo, utiliza o som de apito de uma torneira quebrada e o canto de pássaros trancados numa gaiola, num ambiente fechado, lá embaixo do prédio onde ela mora, gerando um som metálico. Malena desceu com seu celular e gravou o canto das aves encarceradas. “Eu só quero colocar isso pra registrar, então tem esse ponto do registro. Eu estou registrando que eu me apaixonei por essa pessoa, estou registrando que isso aconteceu…”, diz ela.

Coube ao Lamim o exercício de fazer o ajuste fino de todos esses elementos. “As ideias são todas dela, não adicionei ou toquei nada. Apenas regulei os volumes de cada instrumento, em cada música”, conta o produtor, que também mixara outro EP de Malena, Músicas Para Yoga, também deste ano.Lamim conta que o encontro foi natural. “Nós fazemos parte de uma geração de pessoas no Brasil que trabalha a música eletrônica com computadores velhos, samples de baixa qualidade, colagens, gambiarras”, analisa. “Eu sempre trabalhei nessas condições, mas por muito tempo eu emulava uma coisa lo-fi pra parecer hi-fi. Depois da Malena, aprendi que não preciso me importar muito com isso, se a música é boa, se a ideia é boa”, conta Lamim, que ofereceu seus serviços por admiração. “Percebi que o trabalho dela é original e único. Gosto muito da forma com que ela assimila as referências musicais e transforma em outras coisas. Se estamos falando de ambiente, o que ela faz é muito distinto do que existe por aí. Se falamos de ‘noise’, também”, conclui.

foto:  Gatito Chan

Lamim também assina a capa do álbum, um fundo rosa com letras góticas e um cisne morto segurado pelo pescoço. “Então!! Na verdade isso foi feito de última hora, hauahuahahu! Eu só assinei a arte porque fui eu quem fiz aqui no Photoshop ontem [no dia anterior ao show] com ela do lado. A foto é da internet e eu só diagramei pra encaixar no formato de encarte de fita k7”, lembra Lamim. E, sim! Além de poder ser acessado no Bandcamp, em breve o álbum será lançado também em k7!

Apesar de improvisada, a arte da capa é oficial e definitiva e representa perfeitamente o conceito do álbum, que para Malena é a fragilidade/vulnerabilidade: “Existe essa narrativa do cisne, que é um animal frágil, que em algum momento alguém atira uma flecha”, imagina. “Eu fui buscando essas referências imagéticas: todas as aves que são frágeis, tipo as garças, ambientes frágeis, tipo o pantanal, tempestades de raios, rios muito serenos… estou muito envolvida na narrativa que é assim: minha vida é muito, muito vulnerável e eu tou muito apaixonada. É basicamente isso”, resume Malena.

foto: Gatito Chan

Coube ao Enema Noise encerrar em grande estilo as atividades da noite, com uma apresentação digna da qualidade da banda, com direito a estreia da baterista Maria Vitória e retorno do antigo baixista Pedro Oliveira. Antes, quem dividiu o palco com Malena foi a fotógrafa Mauricio, conhecida no rolê como Mau ou Mau-Mau. Com o rosto adornado por vários piercings e correntes, Mau-mau performou em perfeita sintonia com a introspecção divosa de Malena Stefano. “Foi bom e intenso me movimentar e seguir as músicas. Estamos conectadas e me identifico extremamente com a Malena”, conta a artista de Planaltina de Goiás, que encara o ato de mostrar o rosto ao público como um desafio. Em performances anteriores, chegou a usar máscaras e balaclava. “É uma forma de me sentir segura artisticamente”, conta.


***

Malena toca quatro músicas do seu novo álbum e tem de executar quatro bis. Então ela toca quatro músicas inéditas, que estarão no próximo trabalho. Entre os raios, trovões e tempestades projetados sobre o pano de faixa verde-fluorescente, com a gigantesca rosa na mão, com movimentos suaves e estudados. “Existe essa provocação. Eu tento provocar desse modo. Sendo muito gata, estando muito gata. É uma maneira de provocar. ‘Então você não sente atração por mim? Um jogo desse. Eu acho muito interessante, porque é isso: num momento, as pessoas estão assustadas e em outro, elas estão boquiabertas. É aí, pra mim, que o negócio deu certo”.

Malena encarao público e fecha os olhos. “Eu gosto de sentir que eu estou tipo numsonho. Eu sou uma modelo muito linda e tou performando aqui, sendo muito linda,com uma música estranha atrás”. Malena abre os olhos e o sonho é apenas amais pura realidade. Agora, é o público que, encantado, sonha o sonho Loops e seextasia com a música. E então o bis acaba. As luzes se acendem e Malena mangueia: “Se alguém quiser me salvar…”.  

foto: isso mesmo, Gatito Chan



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Arte da capa do evento

 

Malena Stefano e Enema Noise no lançamento do álbum “Sentimental”.  
Fotos: Junio Silva

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devana babu

devana babu veio da dimensão 23 e se encantou por isso que os terráqueos chamam de música. produziu e participou de festivais de spacerock no distrito federal, em especial no quadrante são sebas, participou de várias bandas de spacerock e enviou milhares de fanzines pro planeta natal. | é estagiário da revista traços, co-editor do S2 news, guitarrista/vocalista da xxiii, estudante de jornalismo na unb e procura freelas para conseguir pagar o r.u de 5,20. | devana babu abomina maiúsculas.

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