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Manos e Monas: identidades e cultura queer no Rap BR

Conheça as vozes da comunidade LGBT que vêm ocupando a cena do Hip Hop nacional e varrendo o preconceito

Na segunda-feira desta semana, dia 3 de setembro, o Quebrada Queer, grupo paulistano que viralizou com a primeira cypher LGBT do Brasil, no canal Rap Box, lançou seu segundo single, Pra Quem Duvidou. As novidades seguem uma trend de conscientização que começou há bem pouco tempo aqui nas terras BR, com os hoje icônicos Rico Dalasam e Linn da Quebrada, além de muitos outros.

O avanço, é claro, se apoia numa tendência maior: iniciado na década de 1990 nos Estados Unidos, o chamado Homo Hop (ou Hip Hop LGBT) foi descrito pela imprensa norte-americana, já em 2001, como “um movimento global de rappers e MC’s de Hip Hop gays, e fãs determinados, com o intuito de destacar sua reivindicação em um gênero muitas vezes associado com a homofobia e letras anti-gay”. Apesar disso, com a causa LGBT sendo sumariamente silenciada e o conservadorismo voltando à tona nos últimos anos, o movimento se desenvolve a passos curtos em nosso país, tendo seu ponto de virada, aqui, somente agora por volta de 2016.

Pra comemorar o lançamento de Quebrada Queer, o Escuta preparou uma lista de perfis com os sons, clipes, discos e trajetórias dess@s artist@s que estão revolucionando o cenário do Rap nacional e colorindo o microfone com todas as cores do arco-íris. Confira:

#RICO DALASAM

Rico Dalasam

Jefferson Ricardo, 29, mais conhecido por seu nome artístico Rico “Dalasam”, que abrevia “Disponho Armas Libertárias a Sonhos Antes Mutilados”, é um dos primeiros sucessos do chamado Queer Rap no Brasil. Nascido na região metropolitana de São Paulo, o rapper cresceu na cena noturna da capital paulista, onde seu som “espelhava as baladas gays do centro e os shows de Rap da periferia” da cidade.
Rico iniciou sua carreira em 2015 com o lançamento do EP de produção independente Modo Diverso, onde hitou falando de sexualidade, aceitação, vivência nas ruas e preconceito entre os manos, com direito a um vocabulário completo de gírias LGBT. Nesta mesma época, teve também participação especial no disco do Emicida, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015).
Em 2016, Dalasam lançou seu primeiro long playOrgunga” que, assim como seu nome, era uma abreviatura, para “Orgulho Negro e Gay”. No álbum, o músico investe numa estética nova, mais ousada, e numa vibe mais Pop, que abriu portas para um hit no ano seguinte em parceria com Pabllo Vittar: Todo Dia, que coroou de vez sua carreira na representatividade.

“O Rap é uma foto 3×4 da nossa cultura. E ela é machista, homofóbica, reacionária. Mas o Rap é grande, e a Internet faz nascer novos mundos em um clique.” Rico Dalasam, em entrevista ao El País.

Em “Aceite-C”, um dos primeiros sucessos do rapper, Rico se inspira em sua própria trajetória de autoaceitação e resistência.

“Esse Close Eu Dei” foi o primeiro single do álbum Orgunga, com direito a clipe com looks diferentes, modelos e muitas cores.

 

#GLORIA GROOVE

Gloria Groove

Gloria Groove, personagem drag queen de Daniel Garcia, 23, é talvez a escolha mais inesperada dessa lista. No showbiz desde 2002 primeiro como cantor infantil e depois como dublador, o performer entrou de vez na carreira musical dois anos atrás: nasce Gloria Groove, que logo alcançou notoriedade nacional com o lançamento de seu primeiro single, Dona.
Junto com Pabllo Vittar, Lia Clark e Aretuza, Gloria compõe hoje uma dinastia de drags brasileiras que, influenciadas pelo reality show americano, RuPaul’s Drag Race, vêm ganhando projeção mundial com suas performances e músicas autorais nos últimos anos. Mais conhecida por seus sucessos no Pop/Funk, Gloria começou sua carreira com bem mais que um pezinho no Rap: sobre seus primeiros trabalhos, ela comenta “se o Hip Hop é uma grande parte de mim, que eu considero, e drag também, não tem por que não conseguir juntar”.
Seu álbum de estreia, O Proceder (2017), marca uma fase incrível da cantora, caminhando de freestyles inspirados em grandes rappers e carregadíssimos no flow, até alguns hits na levada mais popular do Trap, todos encenados em clipes simplesmente gloriosos de superproduzidos, o que Gloria afirma sempre ter sido seu maior investimento. Mais recentemente, a drag queen vem migrando do Rap ao Pop, com sucessos como Joga a Bunda e Bumbum de Ouro, e avalia: “Eu sempre amei Rap e Hip Hop, gêneros sempre associados aos machos, mas os tempos mudaram”.

“Você não tem noção de como é bom ver um menino de periferia, negro, gay, olhar para o meu trabalho e as coisas que eu faço e dizer: ‘eu posso fazer o mesmo’. Meu maior presente é saber que uma pessoa parou de fingir ser algo que não é e disse: ‘de agora em diante eu vou ser eu mesma”. Gloria Groove, em entrevista à revista Trip.

“O Proceder” é a música tema do primeiro álbum da drag queen: “muito carregado em Rap e Hip Hop, [mostra] uma perspectiva de crítica política e social forte”, diz Gloria sobre o disco.

Segundo a cantora, a música “Império”, que relata sobre a realidade do público LGBT, expressava o fato de ter sua arte validada pelos fãs mesmo com tão pouco tempo como drag.

 

#LINN DA QUEBRADA

Linn da Quebrada

Linna Pereira, a nossa Linn da Quebrada, 28, é uma das musicistas trans mais antigas em atividade. Mais conhecida por seus sucessos no Funk Carioca, a paulistana também fez seu nome no Rap, com hits trabalhados no flow, letras super politizadas e sem papas na língua. Bixa, preta, trans e periférica, com referências em Tati Quebra Barraco e Valesca Popozuda, “seu som é um diálogo da irreverência do Funk com a ‘agressividade’ do Rap”.
Linn já começou sua carreira pisando na homofobia, mandando o papo reto para os “machos discretos” e enaltecendo as “bichas afeminadas”, com o lançamento, em 2016, de sua primeira música autoral e clipe no Youtube, Enviadescer. Ainda com o título de “MC”, Linn lançou no mesmo ano os que, ainda hoje, são seus maiores sucessos nessa levada mais Hip Hop/Trap: Talento, blasFêmea/Mulher e Bicha Preta. Ovacionada pela crítica e pelos fãs, no ano seguinte, a performer embarcou na turnê nacional “Bixarya”, onde já contava com um repertório de mais de 12 autorais.
Seu disco de lançamento veio em outubro de 2017, através de uma campanha em crowdfunding que lançou ao fãs e acabou superando a meta inicial. Pajubá, um álbum audiovisual de produção independente, é “uma obra de enfrentamento, onde putas, bichas, travestis, negros, mulheres e outros grupos marginalizados”. Além da carreira musical, Linn é conhecida por suas participações nos filmes documentários Corpo Elétrico e Meu Corpo é Político, que trazem pautas e vivências da militância LGBT no Brasil.

“Acredito na representatividade que minhas músicas inspiram, mas recuso qualquer papel de diva ou algo do tipo. Sou mais uma voz entre muitas.” Linn da Quebrada, em entrevista ao Domínio Pop.

Sobre “Bixa Preta”, um de seus hits mais aclamados e com direção musical assinada por Jaloo, Linn comenta: “Essa bixa preta também sou eu, mas, além disso, são muitas outras além de mim”.

“Baseado em carne viva e fatos reais, e o sangue dos meus que escorre pelas marginais”, assim começa “Bomba pra Caralho”, primeiro single do Pajubá, um hino de resistência negra e periférica.

 

#TRIZ

Triz

Triz Rutzatz, de apenas 19 anos, é hoje uma das maiores promessas na cena brasileira do Hip Hop LGBT, desde sua primeira aparição na internet, no início de 2017. O paulistano, que se identifica como trans não-binário ou gênero neutro, viralizou no ano passado após publicar, no Facebook, um vídeo caseiro em que cantava a letra fortíssima de Elevação Mental. Com influências de Cartola e Elis a Sabotage e Bob Marley, a música tem, sem exageros, um dos textos melhor construídos e uma das poesias mais fortes do Rap BR atual, o hit começava com um pedido de respeito à identidade de gênero de Triz, que mostrava a que veio.
A repercussão do post permitiu que o rapper gravasse, ainda em 2017, a versão de estúdio e o videoclipe de Elevação Mental, que foi um sucesso no Youtube. Com um estilo de Rap mais raiz, de flow agressivo e vocabulário periférico, Elevação Mental era um tapa na cara do preconceito e também um pedido de paz: entre as muitas frases de efeito inesquecíveis da canção, é quase impossível não citar “foda-se se o mano é gay, o que importa é o coração”. Em maio deste ano, Triz apresentou um show ao vivo no Red Bull Music Studio e, logo antes, a marca publicou vídeos inéditos de ensaio para o concerto, onde o cantor mostrou mais quatro de suas composições: Sincronia, Hoje Vai Rolar, Punani e Tamo Vivão.

“Eu sou o tipo de pessoa que gosta de ousar, gosto de invadir espaços nos quais disseram que eu não poderia fazer parte, pra mostrar justamente que eu posso sim.” Triz, em entrevista ao Papel Pop.

O refrão harmonioso, melódico e sensitivo de “Elevação Mental”, entoa “O preconceito não te leva a nada. Não seja mais um babaca de mente fechada porque o ódio mata, mas o amor sara. De qual lado ‘cê’ vai ficar?”.

Em “Tamo Vivão”, uma das faixas lançadas no pocket show da Red Bull, Triz canta: “Ser rebelde é fundamental, difícil é manter a sanidade mental”.

 

#QUEBRADA QUEER

Quebrada Queer

Finalmente, a mais nova revelação do Rap nacional, Quebrada Queer é o primeiro grupo LGBT no Hip Hop BR, inaugurado com uma cypher para o Youtube, lançada no último dia 4 de junho no canal da Rap Box. A formação, originalmente composto por Guigo, Murillo Zyess, Harlley, Lucas Boombeat, Tchelo Gomez e, mais recentemente, contando com a participação da DJ Apuke, surgiu da proposta de uma cypher 100% voltada ao público negro e gay. Dos meninos, todos exceto Lucas, que lançou há dois meses seu primeiro clipe, Guerreiros e Guerreiras, já seguiam carreira solo no Rap BR e contam com repertórios completos.
Tchelo, há três anos em atividade no Youtube, divulgou seu primeiro single autoral em 2017 e já fez dois clipes oficiais, com destaque para Me Empoderei e o EP Tchelo Gomez. Tanto Guigo quanto Murillo Zyess publicaram pela primeira vez em seus canais há dois anos, lançando seus primeiros singles, Chega Chegando e Saudação e, um ano depois, as versões definitivas dos EP’s Medusa e No Recinto. Mais recentemente, no início deste ano, Murillo apresentou seu primeiro clipe oficial, Liga o Mic, com participações de Gloria Groove e do próprio Guigo, que não ficou para trás e lançou, alguns meses depois, o vídeo de F.A.K.E. Já Harlley, publicou seu primeiro single e clipe, Antes de Ter Você, em março de 2017 e divulgou seu primeiro EP unlovers no Youtube, no final do mesmo ano.

“MC’s de verdade não desejam sociedade sem diversidade. Recupere o seu bom senso, repense bem os fundamentos sendo verdadeiro. Vai ter bicha no Rap, sim. Eu nem sou pioneiro.” Murillo Zyess, no hit Quebrada Queer.

Com apenas três meses desde o seu lançamento, o cypher Quebrada Queer, single de estreia do grupo, já tem mais de 1 milhão e meio em views.

“Pra Quem Duvidou”, segunda música do grupo, manda o papo reto: “nossa união fez força, quero ver quebrar”.

Como comentamos no início desse post, o Quebrada também acaba de liberar, na última segunda-feira, dia 3, seu segundo single juntos, Pra Quem Duvidou, com produção assinada pela DJ Apuke, em um clipe no Youtube que já beira a marca de 300 mil views em menos de uma semana. Um close de estilo, figurinos e rimas, o vídeo foi produzido 100% na independência, como alerta sua descrição no canal deles, aliás, “com orçamento baixo e na base do favor de amigos próximos e que acreditam no grupo”. Um dia depois do lançamento do clipe, o jornal Metrópoles publicou matéria anunciando show do grupo em Brasília para dia 16 de setembro, domingo que vem. Ainda não há confirmação da notícia nem informações de venda e local em qualquer site local ou na agenda da página oficial do Quebrada Queer, mas ficamos na torcida de que essa expectativa se confirme. Estamos atentos!

E aí? Ansioso pra esse possível show? Enquanto espera mais notícias, aproveita pra botar na sua playlist os sons lacradores dessa lista. Ficou faltando alguém? É só comentar. Fala que a gente escuta!

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Fonte
Wikipédia Homo HopSan Francisco GatePortal Rap MaisNexo JornalPapel PopAlmanaque SOSRap 071Miojo IndieDomínio PopRolling Stone
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Luy Duarte

Músico e vocalista popular desde cedo, possui experiência com teatro musical, MPB, cultura hip hop e história da música. É aluno e pesquisador em História pela Universidade de Brasília, onde estuda a difusão da arte grega na Antiguidade.

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