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Música Regional Latino Americana

Alguns artistas que melhor descrevem a história da América Latina

Muita coisa massa circula pelas entranhas da internet. Muitas vezes passam despercebidas, mas tem sempre alguém dividindo com a gente as riquezas que encontra por aí. Hoje volto no tempo pra lembrar de musicistas que descreveram a história do povo latino americano com genialidade. Listei 5 discos que considero fundamentais na descrição do que há de mais valoroso na música mundial.

Doroty Marques é uma lenda viva da música latino americana. Ela sempre se orgulha do caráter independente de seu trabalho, porque trata-se de uma das primeiras mulheres no Brasil a produzir músicas sem selo de alguma gravadora. A capa do disco Semente simboliza muito do que somos enquanto América Latina: trabalhadores do campo. Esse desenho foi criado no Presídio Político do Barro Branco – São Paulo em 1978 por um preso político e descreve com fidelidade o conteúdo das canções interpretadas por Doroty. As músicas carregam mensagens de reflexão política por todo o álbum, contam histórias de lutas e justiças, além de exaltar a vivência nos interiores, as chuvas e geadas que acometem nossas terras.

Das mais belas obras musicais regionais da nossa história. O terceiro disco do mineiro Dércio Marques conta com participações especiais de sua irmã Doroty Marques, além de Diana Pequeno, Paulinho Pedra Azul, Parê e grupo Paranda. No repertório, muitas músicas dedicadas a figuras emblemáticas da música popular, sonoridades que nos levam aos mais longínquos interiores do Brasil e riquíssima mescla de elementos sonoros, como na música Fulejo (ritmos negros fundidos de Moçambique mineiro, samba rural do litoral, chula gaúcha, manha maranhense e cajón afroperuano). As canções retratam a preservação de valores e virtudes, a vida no campo, sons de passarinhos e a realidade de quem sempre viveu lutando por justiça e amores impossíveis. “Saudade, morena, sei que vou sentir, tenho um coração no peito, não posso ficar aqui, porque a polícia se espalhou no mundo inteiro e até hoje vive atrás de cangaceiro…”.

Cátia de França representa um dos símbolos mais legítimos de resistência pela arte. Mulher negra paraibana compositora lançou Estilhaços em 1980 em parceria com outras gigantes da nossa música. Esse disco conta com participação especial de Clementina de Jesus e Pedro Osmar. A poeta se inspira em diversos outros poetas da nossa literatura nas letras e recita suas obras numa harmonia sonora incrível. Panorama traz uma metáfora genial da cidade grande, em que “tudo isso não faz inveja pra quem vem lá do sertão, bicho de qualquer qualidade soltinho na amplidão…” e Menina Passarinho é a descrição mais verdadeira de amor livre que já ouvi “Amor bom é o nosso, que sabe aceitar a hora da apartação”.

A Banda de Pau e Corda também faz parte dos sons necessários que melhor descrevem nossa história. Esse disco de 1973 traz causos, histórias, cenários, até o cheiro dos matos do interior dá pra sentir. Me gusta mucho a canção Lampião, uma poesia que ilustra a história do cangaceiro, diferente das perspectivas limitadamente negativas de sua existência. Roberto Andrade é uma grande inspiração como compositor e estudioso da cultura popular.

Contemplo também uma mulher que muito representa a música latino-americana. Outra guerreira que sempre falou pelo e para o povo. Em diversos registros que a internet nos traz dos shows de Mercedes Sosa percebemos que seus shows, além do espetáculo musical, traziam ricas referências sobre as inspirações das letras que interpretava. Amplio meu olhar para músicas da América Latina por acreditar que a história do Brasil e de nossos Hermanos latino americanos é a mesma. Disseram nos livros de história que fomos descobertos, mas na verdade fomos invadidos, explorados, estuprados. Porém nossa ancestralidade jamais se resumiu ou se limitará à glória das conquistas nortistas. Nosso povo sempre resistiu e resistirá com luta e sabedoria.

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Tamyres Maciela

Tamyres é linguista e musicista. Curiosa pelos estudos culturais, aprendiz da cultura popular latinamericana e amante da música. Colunista na ESCUTA e n’A Casa de Vidro.

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