DIÁLOGOS

O boogie entre Marcos Valle e Camões

Referências ajudam a criar trabalhos diversos e inventivos

Já faz algum tempo que convivemos com a ideia de que não há nada plenamente novo sendo criado no mundo. Nós estamos constantemente realocando referências e ideias, sampleando, criando obras híbridas, diversas e permeadas por diálogos. E nada disso é menor ou menos relevante, pelo contrário. Aprendemos a ligar e a criar pontes a partir do nosso repertório.

Em um papo exclusivo com a Escuta, o cantautor carioca Camões explora as principais referências (sonoras e estéticas) que circundam seu novo disco, o Drink Club (2019), e Marcos Valle é um dos nomes mais fortes dentro desse leque de inspirações.

Ao se distanciar do tom melancólico de Flôres (2018) Camões explora paisagens mais tropicais, puxando ritmos mais dançantes, trazendo para perto aspectos mais orgânicos e flertando com o boogie, o city pop, o R&B, a bossa, o vaporwave e o dream pop.

Ao traçar um paralelo entre o trabalho de Camões e de Marcos Valle, para além da plasticidade do som e das referências mais palpáveis, vemos uma dinâmica de construção que se dá de forma semelhante. Ao se valerem do clichê, do que é cafona ou até mesmo brega, eles se aproximam do que é comum a todos. Embora estejam falando de perspectivas geracionais diferentes, há objetos e questões que acabam por sempre retornar.

“As experiências que eu tenho que todo mundo tem e que é universal são os relacionamentos amorosos. E é clichê e todo mundo já falou sobre, só que eu acho que a nossa geração tá reaprendendo a se relacionar. E aí eu acho que se torna necessário o que eu tenho pra dizer. Porque eu acho que a gente tem que compartilhar experiência, como a gente tá se amando ou não se amando”, afirma Camões.

Quando escutamos o trabalho de Camões percebemos uma homenagem-inspiração pautada no contemporâneo, no que tem sido feito agora, nos feats (o disco conta com a participação de Bruna Croce, Luíza Boê, Luluca e Zé Ibarra) e nas trocas entre artistas.

“O Drink Club foi o trabalho mais coletivo que eu tive até então. O trabalho que eu construí mais em conjunto. É o melhor dos mundos. O processo se torna mais gostoso, porque você não tá em um monólogo, você tá trocando ideia. Ter alguém pra trocar é essencial pro trabalho evoluir, se não fica uma coisa meio sem propósito. Eu não represento nenhuma minoria, nenhuma luta, nada assim, então eu fico pensando ‘cara, a minha música é necessária?’ ‘pra quê que eu tô entregando?’ ‘porque eu tô entregando?’. E o lance de fazer junto cria propósito. Chamar as meninas pra cantar e trocar com a banda e escutar o Julio, que é o co-produtor do disco, e escutar novos caminhos estéticos… Tudo isso cria um propósito”.

Encontraremos sons divertidos e envolventes em Drink Club e em Sempre (2019), novo disco de Marcos Valle. Os dois álbuns misturam sonoridades variadas – em Sempre, o espírito progressivo dos seus álbuns do início dos anos 70 divide espaço com o funk, por exemplo – e encontram lugar onde o riso e a diversão podem ser pensados como contribuições potentes para os dias de hoje.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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