GULAG TUNES

O LADO SÓRDIDO DA INDÚSTRIA DA FAMA

Até quando os bastidores serão palco de estupros e abusos?

Abuso sexual e assédio são “endêmicos” na indústria cultural e dos esportes, com uma esmagadora maioria de homens abusando de seu espaço de privilégio.

A pergunta que ecoa na minha cabeça é: “É possível apreciar arte feita por aqueles que prejudicaram e violentam outras pessoas?”

É difícil encontrar uma mulher que trabalhe hoje na indústria e que nunca tenha sido vítima de assédio sexual.

Dá pra levantar histórias de má conduta sexual de outras pessoas. Mas o que eu realmente recebi, pesquisando para a Gulag dessa semana, são histórias de estupro acontecendo na propriedade da empresa, homens insistindo em sexo oral de mulheres jovens e outras menores de idade, homens agredindo seriamente mulheres, estuprando-as em apartamentos de propriedade de grandes empresas de música.

Eu conheço e falei com muitas mulheres que foram assediadas sexualmente e agredidas, mas que estavam com muito medo de compartilhar suas histórias, por medo de nunca mais voltar a trabalhar e principalmente por medo da mídia fazer do agressor vítima.

Uma dessas amigas disse o seguinte: “Depois de conseguir um emprego numa grande empresa de música, ligada a maior emissora de televisão do país, ela disse que foi obrigada a “ficar” com um superior mais velho e uma mais velha, que repetidamente a agrediu.”

“Ela entrava no meu quarto sem roupa.
Ele se masturbava na minha frente e dizia:
‘Eu sei que você realmente gosta’”, explica ela.
“Eu me sentia como uma escrava sexual.”

“Teve um dia, eu estava com uma garota no escritório e nos disseram para ir vê-los. Então fomos até o escritório dele, estava só e o escritório praticamente vazio, acho que era véspera de feriado, ele tirou o pênis e disse: ‘Eu quero fazer em trio com vocês’.”

Abusadores, estupradores, pedófilos e agressores sexuais têm uma coisa em mente: destruir e machucar pessoas por um desejo egoísta de satisfação de algum prazer. Eles anseiam por poder e não param até sentirem que têm domínio total (o que é improvável). A razão para isso é que os abusadores são pessoas que se sentem inseguras e impotentes, mesmo que sejam muito apreciadas ou populares. Eles são frequentemente possessivos, carecem de autoconfiança e têm uma história de agressão. Eles podem até ser muito simpáticos, charmosos e românticos. Muitas dessas pessoas são músicos conhecidos.

Já ouviu a expressão “separar a música do artista”?

O grande volume de acusações recentes, em grande parte de propriedade sexual (mas incluindo vários comportamentos abomináveis) inspirou alguns a descrever este momento no tempo como divisor de águas.

E a que custo? Como fã de música, penso na lealdade aos registros que mais tarde descobrimos serem criados por indivíduos abusivos e, isso, de alguma forma compromete. Somos forçados a lutar contra as consequências morais. Como podemos manter a visão de nós mesmos como “bons” e ainda desfrutar do trabalho de artistas que podemos desprezar no nosso dia a dia? É mesmo possível? Ou devemos cortar a arte e o artista de nossas vidas, deixando a merch rasgada no chão do nosso quarto?

Nós podemos tomar as ruas contra os nazistas e fascistas. Podemos (às vezes) votar para manter os abusadores do escritório. Podemos protestar contra quem quer que esteja nas redes sociais. Mas não podemos impedir que um agressor seja presidente da república. Não podemos pegar um estuprador e bater o crânio no concreto como se estivéssemos num filme. Não podemos salvar ninguém, não o suficiente!

Penso que não podemos dar a esses artistas, que praticam atos repulsivos contra pessoas inocentes, uma grande plataforma para controlar e estar no poder. Não podemos permitir que eles machuquem mais pessoas. Apoiar esses abusadores, mesmo depois de conhecer seus crimes, faz com que eles achem que não há problema em repetir suas ações.

Para os fãs de música, a questão é complicada pelo fato de haver tantos fatores e a mídia tendenciosa. Nós nos preocupamos apenas com os grandes artistas, não nos preocupamos com as ações de bandas locais favoritas, dos idiotas do indie de nível intermediário de cada cidade desse brasilzão. E favor não esquecer as bandas punk e emo que moldaram nossa adolescência. Muitas vezes, essas pessoas escreveram músicas que são integrais ou, pelo menos, adjacentes à nossa própria vida sexual. Talvez um DJ, como eu, tenha salvado sua vida e talvez uma música, específica, estivesse tocando durante o seu primeiro beijo.

Embora o FUNK, seja o demônio do momento, eu não estou tentando começar uma competição de traumas entre os meios, mas acho que a maioria das pessoas com um pouco de bom senso concorda que a música, a mais acessível das artes, atravessa todas as linhas de classe e cultura em seu alcance e o chão é infinitamente traiçoeiro.

A solução mais clara, para mim, quando me deparo com o comportamento deplorável de um artista, é remover completamente a música da minha vida: pare de transmitir seus registros, apague suas músicas do iTunes, Deezer, Spotify e nunca mais fale sobre elas. É um pouco mais fácil do que você pensa. E ajudamos a desconstruir a própria hierarquia: Com poucas exceções, para cada banda que você ama, eu posso encontrar um igualmente boa, de som similar, não preenchido por merda.

Física ou psicologicamente, sexual ou cognitivamente, ABUSO É ABUSO. Seja um estupro consumado com boletim de ocorrência e tudo (algo muito difícil falando de uma classe privilegiada e com bons recursos) ou anos de traição, deslealdade, pressão psicológica, ciúme exagerado, controle, possessão, obsessão, enfim… não se pode passar pano. E neste caso não se pode esperar que aconteça, ou que a justiça seja acionada, ou que se prove o contrário. Uma história isolada podem até usar “armação” como argumento, mas uma pipoca de três meses, com vários casos vindo à luz, ainda que nenhum oficialmente registrado, é vergonhoso simplesmente ignorar. Se estivessem certos acionariam seus advogados e iriam atrás de cada difamação, ao invés de chorar em rede social. Mas não fazem isso, sabem que no fundo, não são totalmente impunes apesar de sua fortuna.

John Lennon, Ghandi, Neymar, Gustavo Bertoni e Johnny Depp. Há muitos e muitos mais para listar. Nós, como sociedade, não devemos apoiar essas pessoas. Temos que ouvir as vítimas e condenar seus agressores. E não se contentar com pedidos de desculpas convenientes. Se não, corremos o risco de que abusadores prejudiquem mais pessoas. Corremos o risco de as vítimas ficarem com o agressor, nunca vivendo uma vida feliz e gratificante e potencialmente acabando mortas ou gravemente feridas.

A resposta não é nova e dependendo do caso, não se faz imediata. Mas a preocupação sempre estará presente, desde que haja arte criativa e música gravada, algumas vítimas falarão pela primeira vez.

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Opium Jones

Opium Jones é um pirata que queima pontes e destrói miragens com frases que provocam visões e colisões. Uma alucinação de ácido, e por que não um desses mistérios da vida. É um cara loco e insano que ama a psicodelia da vida e vagar por aí. A única coisa que sabe com certeza, é que não sabe o que quer fazer. Escritor e poeta, usuário de drogas, faz som e uns filmes. Faz um monte de coisarada... Só seguir!

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