DIÁLOGOS

Os caminhos amorosos de Bemti e Victor Heringer

A dor proporciona amadurecimento e reencontros no álbum “Era dois” e no romance “O amor dos homens avulsos”.

Construir relações afetivas demanda (entre outas coisas) presença. Esse espaço comporta uma série de complexidades que não costumam se dar de maneira linear, leva tempo para amadurecer sentimentos. Esse trabalho amoroso pode encontrar na arte um certo lugar de expressão. No álbum “Era Dois” (2018), de Bemti, e no romance “O amor dos homens avulsos” (2016), de Victor Heringer, a ausência acaba por tomar conta das cenas que são apresentadas, embora os contextos sejam diferentes.

Em 2017, Victor Heringer (1988-2018) foi finalista do Prêmio Oceanos com “O amor dos homens avulsos”, um romance cuja temperatura não saí dos 31ºC, e que traz, como é possível ler na contracapa do exemplar que tenho em mãos, “uma bela e dolorosa crônica de saudade e amadurecimento”. Um amor que é vivido em quatorze dias e dura uma vida inteira.

A interrupção dessa história acontece de forma dura, rápida e inesperada. O que marca esse amor são os detalhes, as pequenas narrativas e os dias compartilhados. Porém, há um certo monstro, “que pesa o coração dos homens depois que morrem”.

Victor nos deixou um romance contemporâneo, delicado e difícil. Difícil porque há uma densidade afetiva que não se dissipa após a leitura. Algo semelhante ocorre com o disco de Bemti. As composições do músico mineiro transitam entre o desejo de algo novo e as lembranças que ficaram.

A dor aparece como um denominador comum aos dois trabalhos.

Em seu primeiro trabalho solo, Luís Bemti se debruça sobre desilusões e reencontros, explorando a fragilidade das relações contemporâneas. E ele não encarou essa empreitada sozinho, importantes nomes do cenário musical brasileiro contribuíram para que esse álbum escancarasse sua potência – desde a produção de Luis Calil (Cambriana), até a participação de Johnny Hooker, Natália Noronha e Tuyo.

“Era dois” evidencia um certo desamparo proporcionado pelos desencontros amorosos – essa é uma questão importante dentro do romance de Victor Heringer. Quando você se confrontar com o outro, nunca mais será o mesmo. As histórias se enlaçam, os personagens desse enredo estarão implicados, mas não são obrigados a seguirem juntos.

No clipe de “Tango” a melancolia se apresenta e gira em torno de uma decepção. De repente não há mais nada ali, é preciso encarar os fatos e traçar outros caminhos.

Já em “Eu te proíbo de ter esse poder sobre mim”, essa “libertação” encontra lugar. E aqui, as relações afetivas abrem portas. Seja pela amiga encontrada, que apresenta uma outra perspectiva, que literalmente, tira o osso da mão, ou pelo encontro com um novo amor.

“O amor dos homens avulsos” nos toma pela delicadeza e pelo susto, “Era dois” nos coloca perto dos temores amorosos. Seja pela via da literatura ou da música, o despertar se enuncia na forma como as memórias se apresentam.

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Letícia Miranda

Artista visual e poeta, Letícia se interessa pelas interseções entre poesia e som, poesia e imagem. Por meio de recortes busca ligar o que parece distante. Está há mais de dois anos escrevendo sobre, e a partir, da música. Além de colunista da Escuta atua como redatora no Música Pavê.

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