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Por que Bogotá? – Leia o primeiro post de nossa correspondente na Colômbia

Como a dificuldade em dar protagonismo ao mercado latino faz dessa pergunta um pressuposto indispensável

 

Já tem um tempinho que temos escutado um pouco mais sobre a Colômbia para além de Shakira e Pablo Escobar. Nada que fuja também de qualquer estereótipo, mas dá para perceber que os olhos da indústria pop têm se voltado para coisas que esse país pode exportar. Colômbia foi considerada a capital mundial do reggaeton em 2017, ainda que tenha sido Porto Rico o progenitor do ritmo de fato. O que viu-se em 2017, quando um reggaeton (Despacito) disputou o título de música mais tocada do ano com Shape Of You, do Ed Sheeran, foi a constatação de que, a música pop latina pode até parecer despretensiosa, mas é forte pra caramba!

Também já sabemos que Anitta entendeu bem como se projetar mercado afora. Em junho, eis que ela surge compartilhando o processo de decisão do lançamento do novo single pela IGTV do Instagram, partindo da escolha entre duas canções, sendo que uma delas já estava com o clipe completamente pronto. A escolha, no fim das contas, foi pela música que dizia respeito a um clipe que estava prestes a ser gravado, em várias partes do mundo (Japão, África, Índia, Estados Unidos e Colômbia). Enquanto citam todos os países incluídos nas gravações, alguém pergunta “e o Brasil?” e a resposta de Anitta é de que “Brasil é muito igual a Colômbia”, já justificando porque não seria dessa vez.

Foto: Divulgação

O clipe de Medicina (o single escolhido) traz crianças pelo mundo e Anitta em Bogotá, a capital da Colômbia. Nas imagens da IGTV sobre o processo de lançamento de Medicina, a própria cantora pergunta a equipe “por que Colômbia?” e a resposta pareceu simples e direta: “porque a equipe toda é de lá”. Porém, quando pensamos em se tratar de um clipe de locações quase acidentais, mais adiante Anitta traz a ideia de que “somos todos latinos” e que não se deveria associar a ideia de latinidade somente a países de língua espanhola. Por fim, no clipe há imagens no Brasil, talvez pelo mesmo motivo de porque também não as teria: seria possível um só país representar a América Latina inteira na multiplicidade que ela é? Ou por que não um só país falar por um momento pela América Latina inteira, como ela é?

Anitta aparece no clipe em um dos lugares mais incríveis de Bogotá: nas ruas amarelas da Ciudad Bolívar, o sul da cidade. O lugar onde todas e todos falam para não ir assim que se chega na capital; o lugar em que não se pode subir sem que se esteja com alguém que realmente o conheça; o lugar que se tornou há alguns anos as ruas mais coloridas de Bogotá por um projeto de desenvolvimento citadino, o Habitarte, daqueles populismos classudos que conseguem maquiar a tristeza do abandono de um espaço e de um povo e que assim sempre os mantém. E é a partir disso que responder “Por que Bogotá?” às vezes não parece suficiente. É a partir dessa pergunta que eu consigo entender que, se eu tivesse escolhido viver em qualquer outro lugar não-latino do mundo, eu não teria que responder tanto porque escolhi estar nele e que, só assim, finalmente em Bogotá, me fiz latina. Não por me sentir mais pertencente à Bogotá (muito pelo contrário). Me fiz latina por ter sido preciso deixar meu país para compreendê-lo melhor, principalmente na dimensão daquilo que diz respeito ao que compartilhamos – nós, América Latina, juntas e juntos -.

Por alguns motivos óbvio$, Anitta já entendeu que latinidade é mais que a variação de um termo que nos chamam os que nos colonizaram. É mais que uma condição que nos junta em passado. A latinidade, principalmente para brasileiras e brasileiros, precisa ter a ver com o despertar do sonambulismo cultural que nos imergiram. Não é mais sobre condição e sobre o que já nos juntou um dia. Latinidade precisa ser sobre perceber o quão mais próximos podemos estar e o quão mais fortes podemos ser diante qualquer prática imperialista a culturas tão flamejantes.

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Thaylla Gomes

Correspondente na Colômbia levando choque centrobogotano diário de realidade. Pesquisadora, graduada em Comunicação e cursando Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília, acolhida pela Universidad de los Andes, em Bogotá, e agora entendendo melhor os encontros e dissonâncias entre a brasilidade e suas vizinhanças. Sabe mais de moda de viola do que a cara aparenta. Vai sempre pelo som regional, experiências locais e rolês com glitter. Desvendando a latinidade e gritando pelas coisas que resistem. Também invento palavras.

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