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Religião, simbolismo e psicologia: conheça o novo EP da banda Ann’emic

As faixas são conceituais da primeira até a última

“Não há árvore que cresça até os céus sem que suas raízes alcancem o inferno”.

A fim de contextualizar um pouquinho, a frase de abertura desta resenha é uma analogia feita pelo psiquiatra e criador da psicologia analítica, Carl Jung, também presente ao final da primeira música do EP Derash (2018). Mesmo sujeita a inúmeras formas de interpretação, Jung não tinha o intuito de falar sobre superação ou salvação em si, mas sim da dicotomia entre os arquétipos de luz e escuridão e como isso afeta a simbologia das religiões, sobretudo a cristã.

Jung era tilelê, rapaziada.

O disco começar com Ascend e terminar com Descend reforçou essa ideia de dualidade. O primeiro som passa uma sensação transcendental, algo muito além do que é tangível aos humanos, abordando essa prepotência que a gente tem pra certas coisas. A música meio que fala sobre sermos literalmente um ponto dentre todos os bilhões de pontos no universo, é inimaginável a quantidade de possibilidades em outros planetas e, ainda assim, temos a presunção de pensar que somos os únicos. A faixa começa com um baixo de timbre soturno e cânticos que logo me remeteram a banda gringa OM e aquela pegada de música bizantina, bem bruxão e tal. A cozinha da banda definitivamente é um ponto alto nesse disco, tocada de maneira cadenciada, hipnotizante, mesclando bem com o conceito do EP como um todo.

A segunda faixa, Derash, tem nome de origem hebraica e significa algo como “buscar”, sendo esta uma das abordagens para se estudar a Torah judaica. Na música, a Ann’emic faz referências à Nova Ordem Mundial, trazendo passagens com vocais mais rasgados, com a guitarrinha brilhando nos riffs e se fazendo mais presente.

Antiseed nos apresenta a ideia de entropia nesse mundão de meu Deus que a gente vive, em um nível muito elevado, nesse caso. Sem destrinchar o conceito, bem rusticamente, entropia quer dizer desordem: a Terra está morrendo e os assassinos somos eu e você, destruímos tudo e todos que vemos pela frente pois, afinal, somos os únicos “filhos de Deus”. Mas se somos filhos de Deus, somos bons, certo? Essa ideia que remete à frase do Jung citada em Ascend. É impossível ser totalmente bom, além da bondade ser impraticável sem o conhecimento da maldade. Essa é mais dinâmica que as outras duas, pra tu bater cabeça sem medo de ser feliz. O som é cadenciado, as transições ocorrem “lisinhas” sem a sensação de que as partes da música foram “jogadas” ali de qualquer forma. Música bem construída, finalizada com um berro que me lembrou “H” da Tool.

Antiseed é uma referência ao filme Mad Max: Fury Road, e faz um paralelo entre aquela realidade pós apocalíptica e a nossa, parafraseando a personagem Angharad: “eles são os antiseeds, plante uma e veja algo morrer”. Alegoria bacana pra dizer que a gente só fode o rolê.

Descend finda essa viagem de conceitos, símbolos e referências mostrando que no Brasil tem metal criativo e de muita qualidade. O disco é denso e difícil de revisar, com ideias que servem de material para horas e horas de reflexão acerca da vida, da natureza humana, do universo. Recomendadíssimo pra galerinha que curte Tool, Deftones, OM, Samsara Blues Experiment e outras bandas dessa nova onda alucinógena do rock/metal.

Você pode ouvir o EP na íntegra no Spotify. No YouTube estão liberadas duas das quatro músicas.

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Matheus Ferreira

24 anos, aspirante a psicólogo clínico, fã de lovecraft e tolkien, acompanha a movimentação da cena lamacenta underground do rock/metal nacional

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