ROCKsubterrâneo

sexo. noise. silêncio.

uma crônica sexual, barulhenta e contra a lei do silêncio* de devana babu

eu não gosto do silêncio. gosto de andar pelas ruas cavernosas e escuras escutando meu poderoso mp3 e me esquivando dos ladrões. o silêncio é um deus pagão na minha religião, que cultua a mim mesmo. é meu maior inimigo, o silêncio. no silêncio, posso ouvir meus pensamentos. acha que eu quero ouvir meus pensamentos? nunca!, e correr o risco de me conhecer? acha que quero achar soluções e perscrutar as profundezas filosóficas? eca! não! eca! não mesmo. só quero ouvir o meu som, na intensidade das alturas, na barreira do limite, junto às margens do infinito. o mundo sou eu e meus sons, e se fecho os olhos por um instante sinto que meu ser é apenas ondas sonoras. (não gostei dessa frase, vou recortá-la). gosto de andar pelas ruas com a cara fechada e os fones nos ouvidos, fingindo que as pessoas que se acotovelam na avenida principal, cuspindo testosterona e desgosto, são apenas figurantes do meu videoclip. assim! continuem! esse enquadramento está ótimo! violência, confusão, fúria e futilidade. perda de tempo, ideias provincianas, comportamentos simiescos, danças tribais, poses artificiais e nenhuma beleza. lindo! a decadência humana é a tela perfeita para ilustrar o som ensurdecedor que sai dos meus fones de ouvido. o barulho é meu silêncio e o silêncio é uma aberração. o barulho é uma prece e o silêncio é um deus pagão. não preciso do silêncio. acha que eu quero ouvir seus gemidos? gosto de transar com a música nas alturas e os seus gemidos dentro do compasso. não quero conversar. não com as palavras. quero sua música transpirando por todos os nossos poros e transcendendo nossos pensamentos. (quando ouço rock’n’roll no último volume não posso ouvir os meus gritos. ninguém pode). nesse momento quero ser uma canção pós-punk. quero que um som percussivo, repetitivo, intermitente e anormal ataque meu ouvido esquerdo até que eu sofra um edema. quero morrer neste instante. quero ouvir uma canção longínqua e repassar na minha cabeça todos os detalhes da gravação. a mixagem, os timbres, e reverberação ideal atingida dentro do banheiro, o isolamento acústico das paredes, a posição da bateria. quero sentir o reverber todo na minha cabeça e visualizar o estúdio, sentir na minha alma o tipo de parede, ouvir a fumaça do cigarro do técnico de som e a voz dela gemendo fundo no meu peito. o silêncio é uma abominação. não quero ouvir o silêncio do mundo. se quisesse iria para o espaço. também gosto do barulho das ruas, os passos, os carros, o vento, as árvores, o dinheiro sendo contado, os camundongos conversando, as latinhas sendo chutadas, os cassetetes comendo, o guinchos e silvos dos maloqueiros, os guinchos e silvos das piriguetes, os guinchos e silvos dos alunos e dos professores do centro de ensino médio, o silvo da panela de pressão, o protesto da carne cozida, o batom roçando nos lábios, o asfalto torrando, o céu evoluindo, saltos de all star, saltos de coturno, saltos de botina sapatilha sapatos havaiana crocs. solado de borracha, tamanco de madeira. roda de cadeira de roda o bater das muletas na calçada. sistema hidráulico máquina sorvete. Parafusos, mãos indecentes. todos os sons. amo-os todos. mas o silêncio, não. o silêncio é uma merda.

(não quero ouvir meus pensamentos)

*essa crônica na verdade nunca teve nada a ver com a infame lei do silêncio. isso só foi colocado no subtítulo pra aproveitar a chance de alfinetar essa lei ridícula.
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devana babu

devana babu veio da dimensão 23 e se encantou por isso que os terráqueos chamam de música. produziu e participou de festivais de spacerock no distrito federal, em especial no quadrante são sebas, participou de várias bandas de spacerock e enviou milhares de fanzines pro planeta natal. | é estagiário da revista traços, co-editor do S2 news, guitarrista/vocalista da xxiii, estudante de jornalismo na unb e procura freelas para conseguir pagar o r.u de 5,20. | devana babu abomina maiúsculas.

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