ARTIGOBRASILEIRA

Virgínia Rodrigues: essência de tudo sem fim

Algo sobre os 20 anos de carreira dessa diva ainda pouco conhecida no Brasil

Virgínia Rodrigues é essência, labareda, mar profundo, um sol negro a iluminar a canção brasileira desde os primeiros vocais postos na “Invocação” de Chico Cesar, gravada por Maria Bethânia no disco “Âmbar” (1997).

A voz feminina mais ancestral do Brasil alcança, neste ano de 2018, 20 anos de carreira em disco, tempo celebrado em belo show que passou com grande êxito pela Caixa Cultural em São Paulo, entre os dias 9 a 11 de novembro e que passará por Brasília nos dias 16 a 18 de novembro, com participação especial de Tiganá Santana, e no Rio de Janeiro, no dia 29 de novembro no Espaço Cultural BNDES.

O novembro negro, mês em que se celebra o Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 20, data atribuída à morte de Zumbi dos Palmares em 1695, é uma das ocasiões mais férteis para pensar e debater a inserção da população negra na sociedade brasileira.

Esse debate, que é tão caro e estrutural para a sociedade que conviveu com a escravidão por mais de três dos seus cinco séculos de existência social, não pode ficar restrito apenas a um mês no calendário anual, mesmo porque nem só sobre racismo/questão racial podem falar os negros e nem só novembro é momento para reflexão sobre as questões estruturais de nossa sociedade.

Por isso que aqui, na Escuta, temos espaço franco para falar da música preta, sempre. Quanto a esse debate ver interessante matéria de Cecilia Olliveira, disponível aqui: https://theintercept.com/2018/11/01/uma-lista-para-365-dias-de-consciencia-negra/.

Mas, ainda assim, entendo que também não podemos deixar de abrir janelas para essa reflexão. Isso porque nesse mês costuma-se abrir mais espaço para que os artistas e intelectuais negros ocupem a cena com maior protagonismo. É em novembros assim que temos o inefável prazer de ver e ouvir a imensa voz de Virgínia Rodrigues nos palcos das capitais brasileiras.

Uma excelente ocasião para nos questionarmos acerca das marcas da escravidão em nosso tecido social e das permanências do racismo estrutural que ainda nos caracteriza enquanto país.

Onde estava Virgínia Rodrigues nos demais meses do ano?

Certamente estava e continua lutando incansavelmente por produzir seu som de alto nível técnico e inestimável apuro estético e brilhando no exterior, que a reconhece a mais tempo e com maior furor do que a sua própria terra natal.

Essa ausência de espaço para artistas negros é uma constante no Brasil, basta pensar que a grande Elza Soares só pôde gravar o seu primeiro disco de inéditas depois de 50 anos de carreira.

No caso de Virgínia, não é demais lembrar que ela é descrita internacionalmente como a Cinderela brasileira, em virtude de sua origem popular, e que ela ocupa espaço de maior destaque no exterior do que no próprio país, o que evidencia ainda mais nossa denegação pela arte negra.

Com grande êxito já no lançamento de seu primeiro disco, Virgínia realizou turnês pelos Estados Unidos e Europa, recebendo críticas elogiosas de jornais como o The New York Times, Le Monde e revistas especializadas como All Music Guide e Rolling Stones.


Virgínia Rodrigues – Canto de Ossanha (Vinícius de Moraes/Baden Powell).

Além das críticas positivas, Virgínia já foi entrevistada por David Barnie para uma TV estadunidense e foi aclamada pelo então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que a cita em suas memórias autobiográficas.

Lélia González, importante nome de nosso feminismo negro, nos deu uma pista, há alguns anos atrás, que nos ajuda a pensar porque o Brasil continua ocultando suas grandes figuras negras, como Virgínia Rodrigues.

González caracterizava o preconceito racial no Brasil como um “racismo por denegação”, que faria com que a branquitude negasse espaço à população negra porque, entre outros motivos, a pessoa negra é a representação material mais visível do horror praticado em nossa história escravocrata.

Foi a própria Lélia que nos disse também que a cultura era um dos espaços de maior importância na luta contra o racismo no Brasil, uma das dimensões mais fortemente influenciadas pelos povos de origem africana.

Sendo assim, não descarto a oportunidade de travarmos aqui esse diálogo para abrir espaço para uma das maiores vozes brasileiras, que carrega tantas Áfricas em si.

Virgínia Rodrigues, para quem não sabe, foi “descoberta” pelo diretor de teatro Marcio Meirelles em 1994, que a convidou a integrar o Bando de Teatro Olodum e numa das apresentações do grupo encantou Caetano Veloso, que como todo ouvinte de primeira viagem desse canto sagrado, ficou impressionado com a beleza e a força de sua voz e apadrinhou a sua entrada no mercado fonográfico.

Lançada no Brasil e no exterior, Virgínia teve seus três primeiros discos dirigidos por Caetano e já em seu primeiro trabalho contou com as participações dos imensos Djavan, Milton Nascimento e Gilberto Gil.

Nesse disco, Virgínia deu interpretações definitivas às 12 canções como “Terra Seca” (Ary Barroso), “Noite de Temporal” (Dorival Caymmi), “Sol Negro” e “Lua, Lua, lua, lua” (Caetano Veloso), “Nobreza” (Djavan), “Negrume da noite (Cuiuba/Paulinho do Reco), “Adeus batucada” (Synval Silva), a clássica “Manhã de Carnaval” (Antônio Maria/Luis Bonfá), “Querubim” (Carlinhos Brown) e, além das músicas “Verônica” (em latim) e “I Wanna Be Ready” (em inglês), uma versão da música “Israfel”, texto de Edgar Allan Poe musicado pelo artista plástico baiano Zuarte Júnior, em tradução de Milton Amado.

Seu segundo disco, Nós (2000) faz delicada homenagem aos blocos afro da sua Salvador natal e com seu canto precioso entoa canções como “Salvador Não Inerte”, “Uma História de Ifá”, “Jeito Faceiro”, “Oju Obá” em homenagem ao Ilê Aiyê, Olodum, Afreketê e Timbalada.


Virgínia Rodrigues – Negrume da noite (Antônio Maria/Luis Bonfá).

Com esse disco, Virginia levou as músicas que animam milhões de foliões no carnaval da Bahia a outro patamar artístico e outros palcos e públicos.

O terceiro disco, “Mares Profundos” (2004), foi lançado no mesmo ano nos Estados Unidos e Europa pela gravadora alemã Deutsche Grammophon.

Nesse trabalho Virgínia, já descrita pelo The Times de Londres como “a nova Diva da música brasileira”, deixa sua marca registrada num dos conjuntos mais significativos de canções brasileiras: os afro-sambas. Entre as canções, destacamos “Consolação” (Baden Powel/Vinícius de Morais), Labareda (Baden Powel/Vinícius de Moraes), essa cantada com Caetano Veloso e Canto de Ossanha (Baden Powel/Vinicius de Moraes), que já tinha registros históricos dados por Elis Regina e Beth Carvalho.

O quarto disco, lançado em 2008, levou Virgínia para uma área confortável ao seu canto, mas um pouco distante da potência afro-brasileira anteriormente característica de sua musicalidade. Uma prova de que Virgínia não só pode dar seu toque camerístico à canção popular brasileira quanto atravessa fronteiras com sentido e compromisso estético.

Acompanhada por Cristóvão Bastos, Virgínia consegue imprimir ineditismo a canções consagradas e já muito cantadas como “Por toda a minha vida” (Tom Jobim/Vinícius de Moraes), “Todo sentimento” (Chico Buarque/Cristóvão Bastos), “A noite do meu bem” (Dolores Duran) e “Porto de Araújo” (Guinga/ Paulo César Pinheiro).


Virgínia Rodrigues – Melodia Sentimental (Heitor Villa Lobos).

Sete anos depois, Virgínia recomeça seu labor com o incrível “Mama Kalunga”. O quinto disco da cantora baiana foi dirigido por Tiganá Santana, um dos mais importantes nomes da nova cena musical brasileira e Sebastian Notini, produtor sueco que dirigiu os últimos dois discos de Tiganá e o disco de estreia de Luedji Luna.

Fincado em matrizes africanas, Mama Kalunga conta com repertório todo formado por compositores negros como os baianos Roberto Mendes e Tiganá Santana, o paulista Geraldo Filme, o pernambucano Moacir Santos, os cariocas Paulinho da Viola e Nei Lopes e o mineiro Abigail Moura, por exemplo.

É Virgínia africana e brasileira, cantando no bom “pretuguês” e em kicongo e kimdundo, reverente ao passado, em diálogos profícuos com Nizaldo Costa e Ederaldo Gentil e referente ao presente da negritude no Brasil e em diáspora com Gilson Nascimento e Tiganá.

Reverenciando Ogum (Senhor do fogo azul – Gilson Nascimento) e à mãe das águas (Mama Kalunga – Tiganá Santana), Virgínia Rodrigues singra e sangra poesia em lamento que preenche todo o espaço onde ressoa.

Nesse disco fundamental de nossa experiência cultural contemporânea, Virgínia nos brinda com belíssimo dueto com Susana Baca, em “Belén Cochambre”, canto tradicional Afrocubano.

Além de Baca, Virgínia conta com a luxuosa participação de Ruth de Souza em Yaya Zumba (Tiganá Santana).

A última participação que divide os vocais com Virgínia é Tiganá Santana em “Sou eu” (Moacir Santos/Nei Lopes). Presença marcante no disco que produziu, Tiganá contribuiu com algumas de suas mais lapidadas composições como “Mama Kalunga”, “Mon’Ami”, Mukongo, Dembwa (10 de Agosto).


Virgínia Rodrigues e Tiganá Santana – Sou eu (Moacir Santos/Nei Lopes)

Agora, celebrando seus 20 anos de carreira, Virgínia percorre o Brasil em show com Marco Lobo (percussão), Bernardo Bosísio (violão), Leonardo Mendes (violão) e Iura Ravensky (violoncelo).

Para nosso contento Virgínia já anunciou seu projeto para 2019, um disco intitulado “Cada voz é uma mulher”, o que nos instiga a pensar na grandeza do que virá dessa nossa potente artista.

Essa matéria é uma pequena descrição dos trabalhos em disco de Virgínia Rodrigues, por meio da qual não podemos expressar o que se sente ao ouvir o canto negro da diva brasileira. Ouçam sua obra nos canais de streaming, vejam seus vídeos no Youtube, compareçam aos shows e festivais, acompanhem essa dádiva musical em suas redes sociais e no seu site oficial: https://virginiarodrigues.art.br.

Que ela seja ouvida, cantada e vista cada dia mais, não só em novembro, não só no exterior. Merecemos Virgínia, esse clarão lilás que veste a todos com o manto azul de sua voz única, onde cabe toda a Bahia e toda a África que mora em nós.


Virgínia Rodrigues – Ao Senhor do Fogo Azul (Gilson Nascimento).

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fredsoncarneiro

Baiano de Ibititá, sou apaixonado por música desde sempre. Sendo um diletante nas artes, sou mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília e doutorando em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolvo pesquisa sobre as transformações promovidas no direito e na política pelas lutas das pessoas transvestigeneres. Sobre a vida e a música, concordo com Milton Nascimento: "Há canções e há momentos/Em que a voz vem da raiz/Eu não sei se é quando triste/Ou se quando sou feliz/Eu só sei que há momento/Que se casa com canção/De fazer tal casamento/Vive a minha profissão".

FALA AÊ!

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