ARTIGOLATINA

Você escuta mesmo MÚSICA LATINA?

Um festival desses, de música do Pacífico, na Colômbia, te faz pensar antes de responder

Lo que uno no conoce, no lo puede defender y mucho menos preservar Fundación Germán Patiño Ossa

Enquanto o mês de agosto para alguns passa arrastado e contadinho, na cidade de Cali, na Colômbia, ele é tão esperado quanto dezembro (o mês da grande Feira de Cali), principalmente para amantes da festa, da música, da gastronomia costeña e da dança. Em agosto, todos os anos, Cali recebe o Festival de Música do Pacífico Petronio Álvarez, uma comunhão multifacetada e resistente de pessoas que ali estão pela cultura folclórica e regional do litoral sul colombiano.

Esse festival acontece desde 1996, idealizado por Germán Patiño Ossa e que, hoje, após sua morte, segue motivado por uma fundação que leva seu nome e, como lema, a posição de que “o que não se conhece não se pode defender e muito menos preservar”. Esse pensamento consegue explicar resumidamente o poder da iniciativa e da vigência desse Festival em Cali todos os anos.

O Festival acontece em cinco dias e conta não só com as apresentações dos grupos musicais e a “mostra de expressões tradicionais” – pavilhões com atrações culturais a todo momento e mais de 200 tendas com cozinha tradicional, bebidas autóctones, produtos artesanais e até atrações de cozinha ao vivo -, mas também encontros acadêmicos, conversatórios e programações com atrações audiovisuais, teatrais e de danças. Durante todo mês há o oferecimento também de oficinas e outras apresentações musicais, bem como durante todo ano que há ainda exposições plásticas e visuais de artistas do Pacífico por galerias de Cali.

As modalidades que dividem as apresentações musicais são baseadas em práticas musicais e ritmos específicos da música pacífica (modalidades de conjunto chirimía, conjunto de marimba e cantos tradicionais, conjunto violín caucano e grupos livres). Não é preciso entender muito da cultura pacífica para notar referências e origem musicais nos arranjos e ritmos e perceber a semelhança também com a música brasileira. O legal disso é saber ainda com mais força que compartilhar raízes não é o que nos torna latinas e latinos praticantes, mas conhecê-las e experienciá-las.

Foto: senalcolombia.tv

Dos 44 grupos apresentados (e ressalto essa ser uma opinião pessoal e bem de acordo com a experiência que vivi assistindo aos grupos, sem a intensão de julgá-los por qualquer outro critério além da minha própria vivência enquanto expectadora do Festival) alguns se destacaram com apresentações emocionantes – em várias das formas que as emoções possam ter -.

Los Pamgurbes y el Ciudeblo
Se descrevem nas redes como “la alegría negra, la malicia indígena y el recuerdo blanco de la memoria”, chegaram no rolê com um vocal feminino e uma pitada radiofônica. Esse bolerinho não tem a pressão e a frenesia que apresentaram no Festival, mas é para conhecer e guardar no coração.

Proyecto Selva
Esse já é o vídeo final da apresentação que fizeram no Festival. Indico já dar uma olhada no minuto 5:30. Vai dar pra saber um pouco do que foi estar por ali, entrando na mesma dança de milhares de pessoas que se arranjam juntas em pouco tempo de batuque (sim, parece um grande flashmob).

Pacífico Libre
Por último, uma das performances mais lindas do Festival, para mim. O grupo que conseguiu, durante três minutos, elevar um público faceiro e buliçoso apenas à contemplação. Dá o play e sente.

 

Explicar, citar e ainda assistir às atrações não equiparam-se à experiência de realmente viver dias como esses na cidade de Cali. A verdadeira vivência e a possiblidade de proximidade a essas práticas tem o poder de efetivamente despertar a procura e a ingestão de manifestações culturais que podem se perder em meio a industrialização da cultura. Esse festival é a prova de que a intenção em preservar manifestações culturais deve ir além de práticas governamentais básicas e meramente expositivas. A verdadeira imersão cultural é o grande caminho para perpetuar e reverenciar culturas de resistência. Na sua cidade há algo a ser experienciado nessa mesma dimensão. Dê voz a essas culturas. Isso também é teu.

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Thaylla Gomes

Correspondente na Colômbia levando choque centrobogotano diário de realidade. Pesquisadora, graduada em Comunicação e cursando Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília, acolhida pela Universidad de los Andes, em Bogotá, e agora entendendo melhor os encontros e dissonâncias entre a brasilidade e suas vizinhanças. Sabe mais de moda de viola do que a cara aparenta. Vai sempre pelo som regional, experiências locais e rolês com glitter. Desvendando a latinidade e gritando pelas coisas que resistem. Também invento palavras.

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