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Você é macumbeiro(a) e não sabia

Músicas que abordam temas religiosos e você cantava como estórias de amor ou amizade

Quantas vezes você cantou uma música e tempos depois descobriu que a letra que você entoava não era nada daquilo que você imaginava?

Dizem que se você ouviu uma música que pensou já ter ouvido antes, é déjà vu, mas se você ouviu e não entendeu, é Djavan.

Mas, anedotas à parte, estes intérpretes quando falam de religião a citam de forma clara nas suas letras. Aqui iremos tratar das músicas de artistas que flertam com as religiões de matriz africana e você não sabia.

Vamos começar com os clássicos…
Zeca Pagodinho todos sabem que é profundo praticante da Umbanda, mas e as suas letras? Vamos lá… comece escutando a música “Quando a Gira Girou”.

Na primeira estrofe o autor relata o que facilmente poderia ser a história de alguém que passou por um momento difícil e que foi amparado por um único amigo. Mas quando entra o refrão que diz “Quando a gira girou, ninguém suportou / Só você ficou, não me abandonou / Quando o vento parou e a água baixou / Eu tive a certeza do seu amor” fica clara a referência religiosa com o termo “gira” que na linguagem da Umbanda é a reunião, o agrupamento de vários espíritos de uma determinada categoria, que se manifestam através da incorporação nos médiuns. Logo, se você ouvir novamente essa letra, vai perceber que nosso amigo de Xerém quer dizer que, no momento de dificuldade, abaixo de Deus só ficou a sua entidade protetora.

Mas a raiz afro religiosa musical não se resume ao Brasil ou ao próprio continente africano.

Na cultura pop norte-americana também tem artista fazendo referência aos orixás ou entidades. Um senhor exemplo é a considerada diva, Beyoncé. Em 2016 nossa amiguinha não lançou uma música, mas sim um álbum inteiro com referências ao Candomblé. Assistam aos clipes de “Lemonade” e reparem como que, na missão de resgatar suas origens negras a cantora lança mão de elementos ligados à religião. Danças, elementos da natureza, roupas e outras simbologias que podem ser comparadas às orixás do Candomblé como Oxum e Yansã, ressignificando e subvertendo o jogo simbólico estabelecido pelas relações hierárquicas de poder.

Voltando ao Brasil…
sabe aqueles ieiês iaiás que geralmente ficam por conta dos backing vocalists? Pois então, às vezes eles podem falar mais do que dizem. A música “Chove Chuva” de Jorge Ben à primeira vista parece falar apenas do Deus católico, mas nos versos finais o sincretismo religioso fica evidente pois o que pode passar batido como um devaneio daqueles do Ed Mota, é na verdade uma sequência de palavras africanas ligadas a Umbanda. Nesse ponto faço uma observação: Tive a oportunidade de assistir ao Jorge Ben ao vivo (um dos melhores shows que já assisti) e percebi que o show é Umbanda do início ao fim.

Eu poderia tecer aqui uma grande lista de músicas e artistas que referenciam religiões africanas sem você perceber, mas para ser sucinto irei finalizar com a mais recente revelação: A cantora Anitta assumiu ser iniciada no Candomblé, a mais forte religião afro-brasileira. E os mais recentes clipes lançados por ela trazem referências visuais dos ritos de culto aos orixás nas danças, roupas e presença de elementos da natureza.

Espero que esse texto possa abrir uma discussão sobre o preconceito que ronda essas religiões. Ritos e celebrações, que por vezes são ligadas apenas ao mal, te entretiveram e te levaram alegria. Salve!

 

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Xandão Roque

Músico, publicitário, produtor de eventos e vencedor do Open Innovation Entertainment 2018.

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