BRASILEIRADIÁSPORALANÇAMENTO

Levante a bandeira do amor e ouça o chamado da igreja lesbiteriana de Bia Ferreira

Cantora lança seu primeiro disco evocando a força das vidas afrolatinoamericanas

“Eu boto fé na menina de 13 anos, medicina tá sonhando, mas tem que cuidar do irmão/ Eu boto fé na tia que tá trabalhando, 12 horas faxinando, 3h na condução, eu boto fé […]”.

Bia Ferreira bota fé nas mulheres pretas, que imersas no cotidiano das desigualdades sociais do Brasil, constroem seus caminhos nas teias estruturais de nossa sociedade de marcas nitidamente escravocratas e patriarcais.

A música “Eu boto fé” (Bia Ferreira), teve a produção musical de BNegão e arranjo dos dois junto com Vinicius Nunes e Heverton Lima, tem na percussão Pedro Amparo e, como backing vocal, Doralyce, que aparece solar.

Bia Ferreira e Doralyce – Eu boto fé (Bia Ferreira)

Autointitulada artivista, Bia Ferreira conseguiu gravar seu primeiro disco, depois de 6 anos tentando, com a reunião de algumas músicas que já haviam projetado seu trabalho na cena musical brasileira com a potência de um discurso comprometido com a transformação social.

Como costuma afirmar em seus pronunciamentos, seu trabalho é revolucionário porque se dedica a ensinar tecnologias de sobrevivência ao povo preto e LGBT por meio da música.

É por este motivo que, além de botar fé nas pessoas comuns, Bia Ferreira dialoga sobre temas complexos, em pauta na sociedade brasileira, de maneira direta e simples. É simples entender os argumentos em torno da música “Não precisa ser Amélia”, por exemplo.

Diz Bia Ferreira que essa música é uma boa síntese do porquê ela canta, assim também do para quê e do para quem.

Repetindo que seu trabalho é para educar pessoas pretas que não tiveram acesso aos mesmos espaços de debate e formação que ela teve, Bia Ferreira canta “pela tia que é silenciada, dizem que a pia é que é seu lugar/pela mina que é de quebrada, que é violentada e que não pode estudar”, “pela preta objetificada, gostosa, sarada que tem que sambar/dona de casa, limpa, lava e passa, mas fora de casa não pode trabalhar”

Bia Ferreira – Não precisa ser Amélia

Esses estereótipos, que marcam com o peso das estruturas patriarcais as mulheres, majoritariamente negras, são questionados por Bia Ferreira que chama atenção para o tipo submisso que esperam das mulheres e rebate afirmando a liberdade de ser quem se quiser ser, “seja preta, indígena, trans, nordestina, não se nasce feminina, torna-se a ser mulher”.

A referência à famosa frase de Simone de Beauvoir aparece enquadrada pelo feminismo negro, que levanta a crítica ao ativismo feito sem a renúncia ou mesmo compreensão dos seus privilégios sociais.

Na música “De dentro do AP”, Bia Ferreira expõe algumas das contradições de setores da esquerda, que afirmam militância contra as desigualdades e discriminações sociais do país, mas vivem dos privilégios gozados pelas elites brancas, que jamais precisaram correr atrás de um busão ou ouvir um não em entrevistas de emprego.

Bia Ferreira – De dentro do AP

Apontando a contradição desses que dizem participar da luta social, mas só o fazem desde os enclaves feudais em que vivem, Bia Ferreira pergunta “quando que cê pisou numa favela para falar sobre seu feminismo?”

Esse tiro certo contra a hipocrisia de alguns também é apontado para o racismo de quem é contra as cotas, ou as supõe como uma esmola oferecida pelo Estado.

Em “Cota não é esmola” (Bia Ferreira), música que a projetou em escala nacional, a cantora mineira-cosmopolita apresenta inúmeras situações que expõe as opressões, humilhações e preconceitos que o povo preto sofre, apenas pelo fato de nascer preto e pobre.

As várias portas que se fecham na vida de uma mulher preta dificultam seu caminho e trazem muitas questões de adoecimento mental, que chega de todas as direções, desde a noção de cota como esmola ou de que a luta antirracista é um discurso vitimista.

Bia Ferreira – Cota não é esmola

A voz de Bia Ferreira ecoa, do tambor. A expressão “nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai” ganhou, na versão do disco, a voz de Doralyce que nomeia “Marielle Franco, presente!”, sem dúvida uma de nossas representantes das “nações escravizadas e culturas assassinadas” em que se fundou o Brasil.

O Brasil, país que recebeu mais de dois terços dos africanos escravizados trazidos para a América Latina onde, hoje, três quartos dos afro-latino-americanos vivem.

Diz o professor George Reid Andrews que “as estruturas de desigualdade impostas pelos governos coloniais enraizaram-se tão profundamente que continuaram afetando essas sociedades até os séculos XIX e XX”. Eu diria que ainda hoje, no século XXI, continuamos marcados por essas estruturas de desigualdade racial.

Sabemos das permanências da estrutura escravocrata do Brasil, tendo em vista que as barreiras do preconceito e da discriminação colocaram os descendentes de africanos e indígenas em condição significativamente desfavorecida na disputa pelo ingresso na universidade, na política institucional, na economia e no campo dos direitos.

Sabendo de tudo isso e reinando como Dandara, Bia Ferreira levanta a bandeira do amor com suingue e encontra o tom do afeto e da necessidade de refletir sobre as próprias dores, de se afirmar a partir daquilo que faz bem.

Descortina também a face feminista, descolonial e LBTQIA+ de seu discurso nas demais músicas do disco com uma pitada provocativa contra o conservadorismo religioso, em especial, de matriz neopentecostal.

Bia Ferreira – Levante a bandeira do amor

Brilhando com sua guia, Bia Ferreira não é só herdeira da fé de nossos ancestrais, de nosso fundamento, é também a herdeira do melhor som que nosso povo preto já produziu. Seu disco é fundamental.

Como as oportunidades ainda são muito diferentes entre nós que ocupamos essa porção do planeta, é necessário ouvir e lutar junto com Bia Ferreira. É preciso atender ao seu chamado.

Cantando com Doralyce, Bia Ferreira convida, mais uma vez, “chega junto e vem cá, você também pode lutar e aprender a respeitar! Porque o povo preto veio revolucionar”.

Cê bota fé em Bia Ferreira? Eu boto fé.

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Fredson Carneiro

Baiano de Ibititá, sou apaixonado por música desde sempre. Sendo um diletante nas artes, sou mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília e doutorando em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolvo pesquisa sobre as transformações promovidas no direito e na política pelas lutas das pessoas transvestigeneres. Sobre a vida e a música, concordo com Milton Nascimento: "Há canções e há momentos/Em que a voz vem da raiz/Eu não sei se é quando triste/Ou se quando sou feliz/Eu só sei que há momento/Que se casa com canção/De fazer tal casamento/Vive a minha profissão".

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