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“Quantas batalha cê tem?” – A rima que vingou além da roda

O verso de Orochi que virou referência no RAP

Em 2016 eu estava fissurado em batalhas de rap. Tipo, não vi quase nenhuma batalha ao vivo, mas saía procurando todas as que foram gravadas e devidamente postadas no Youtube para torcer, vibrar e dar minha opinião de merda em cima de cada punchline dos desafiantes.

A verdade é que assistir batalha de rap é uma parada divertida em vários níveis: tiração, rima e flow. Nessa ordem, necessariamente.

Nessas peregrinações online, acabei vendo muita coisa legal. Passei aquela fase gostosa de babar no speedflow e depois de odiar esse recurso. Acontece. Mas, de tanto pesquisar batalha no Youtube, caí em um verso que me marcou pra caralho. Não pelas rimas ricas ou pela métrica perfeita, longe disso. O verso ficou marcado pela originalidade do flow do moleque que carregava o microfone naquele dia. Falo aqui do MC Orochi.

Quantas batalha cê tem?

Quantas batalhas cê tem?

Cadê seu trabalho na rua ?

O quê que cê fez até hoje ?

Sem caô

Fala pra mim, seu cuzão

Quantos nacional cê já ganhou?

Para entender o peso dessa rima, porém, a gente tem que dar um passo atrás. Acontece que Orochi e Johny, ambos filhos da Batalha do Tanque, eram amigos, mas algo fez com que Orochi se afastasse, bem no período que ele ganhou o campeonato nacional. Isso, aparentemente, criou uma mágoa no Johny, que dizia que o Orochi havia “esquecido os irmãos”.

Se isso é verdade ou não, eu não sei. O que rola é que os dois calharam de se encontrar em muitas batalhas depois, e esse verso do Orochi acabou ecoando.

Mas, por quê?

Dichavando a rima

Orochi faz algo muito diferente do habitual para uma batalha de RAP: ele faz rimas pausadas, tirando o microfone de si e apontando para o adversário, como um repórter entrevistando. Na impossibilidade do desafiante responder (na batalha, cada um só pode rimar na sua vez), isso simula uma entrevista na qual o entrevistado não tem as respostas. Para agravar a situação, Johny realmente não tinha muito do que se gabar naquela época, afinal, Orochi acabara de voltar do Nacional com o título a tiracolo. Vitória fácil.

Já não bastasse esse pisão, acrescento ainda o fato de que o barulho que o público fez no momento impossibilitou qualquer resposta do MC Johny, que teve que recorrer aos versos pífios:

tô esperando o silêncio pra eu poder rimar

É, eu sei.

O verso do Johny virou piada, mas o do Orochi transbordou para além das rodas de rima. O bagulho ficou tão original, que acabou sendo referenciado em tantas outras batalhas e até nesse verso do Mozart MZ lá no RAP BOX:

Além disso, como toda boa obra da cultura, o verso do Orochi também virou meme. Saca só:

        

Com tudo isso, dá pra afirmar que esse é um dos versos que entrou pra história das batalhas de rima do rap no Brasil, pelo menos aquelas que foram filmadas. Porém, esse não foi o ápice da história de nenhum dos MCs envolvidos. Orochi já participou do projeto Poetas no Topo e acaba de lançar um single. Johny já lançou alguns trabalhos por aí também, além do seu divertidíssimo canal no qual faz reacts no Youtube. Dá pra falar, na moral, que o Johny tem sim trabalho na rua.

E aí, tem outra rima de batalha que você acha muito mais importante que essa? Manda aqui nos comentários. Sem caô.

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Natan Andrade Medeiros

Escritor de ficção científica e histórias de boteco, palpita nas horas vagas sobre música em todas as suas formas de vida (seja ela animal, vegetal ou mineral). Publicitário pela UnB e especialista em Mídias Sociais. Escreve contos e crônicas na publicação Simbiose, no Medium, desde 2016. Natan Andrade também está por trás dos podcasts da Escuta Que É Bom.

2 Comentários

  1. Para mim, a final da seletiva DF para o Nacional de 2017 foi a batalha mais sinistra que eu já vi. Ótimas respostas de imediato. Se o Alves não concedesse a vitória pro Sid, seria impossível escolher o vencedor.

FALA AÊ!

Tem a ver...

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