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Menestrel: “Que rapper de direita você viu dar certo? Todos são ridículos”

Nesse texto, você vai ler o que o Menestrel pensa sobre música, rap, sons de balada, artistas mainstream, músicos de direita, política, Bolsonaro, carreira, futuro…

Na semana passada, você desbravou o Pêndulo, EP do Menestrel lançado há umas semanas. Nosso objetivo era só divulgar o novo trampo, mesmo. Só que o papo foi produtivo demais pra gente parar por ali e decidimos fazer uma parte II da exclusiva que ele deu pra Escuta Que é Bom.

Nesse texto, você vai ler mais sobre o que o Menestrel pensa sobre música, rap, sons de balada, artistas mainstream, músicos de direita, política, Bolsonaro, carreira, futuro… sabemos que ninguém é capaz de garantir nada, mas arriscamos a dizer que você vai se identificar com pelo menos uma ideia que ele trouxe nessa entrevista.

Primeiro, ao falar do porquê o EP Pêndulo ser curto (tem 13:51 ao todo), Menestrel afirma que uma música muito longa tende a cansar quem tá ouvindo. “Gosto de fazer faixas dinâmicas porque elas te instigam a dar o replay. Quando você descarrega muita informação na cabeça de alguém muito rápido, ela dá uma pane, trava, fala ‘caramba, quê que aconteceu aqui, calma aí, deixa eu tentar digerir isso tudo de novo.’ Quando você pega uma música muito boa e transforma em uma faixa de cinco minutos e meio, no primeiro minuto ela é muito louca, no segundo ela tá muito daora, no terceiro você espera o highlight da música que é a punch pra ela acabar, e aí ela não acaba e fica maçante.”

Agora, um pouco sobre a concepção de EP, por que gravar um EP e não um CD completo… a visão do rapper é essa: “Trabalhar um EP já é difícil, um CD é quase impossível. Você tem que ter uma estratégia muito boa pra lançar um CD e as 10 faixas terem repercussão, no mínimo cinco dessas vão passar batido, isso é inevitável. Hoje, o mercado da música funciona de outra forma, não é mais como antigamente, que a gente ia na rua, comprava um CD e ouvia inteiro, queria só aquela parada o tempo todo… Hoje é tudo muito rápido. Chega no seu celular uma quantidade imensa de músicas por dia de diversos artistas muito bons. Então, quando você vê um projeto muito grande, vai diretamente nas faixas que o nome ou uma possível participação te chamam atenção, aí vai ouvindo o disco todo quebrado.”

O sertanejo, por exemplo, não lança mais CD. Eles [os artistas sertanejos] lançam single por single. Daí, quando eles têm um pacote de single muito bom, pegam e gravam um DVD.Menestrel, sobre dinâmica de produção musical

Militância

Agora, enfim, chegamos ao ponto da entrevista em que a parada fica politizada. Falar de política é inevitável no rap, e o Menestrel não tá nem aí pra demonstrar a opinião dele, dá ideia sem medo. Sabemos que nem todo artista brasileiro gosta de falar de política e/ou tomar posição, seja do rap ou não. Sobre essa postura, Menestrel pensa: 

“É dever de todo mundo que trabalha com cultura se posicionar contra toda essa parada. Não faz sentido você estar vivendo o lifestyle de uma música periférica e aceitar que o governo governa pra pessoas que não são maioria nesse país. É inaceitável você ser chamado de minoria num país onde a maior parte da população é negra, pobre, e tá se lascando diariamente. Enquanto negros, LGBTQI+’s e pobres tiverem que lugar só por igualdade, os ricos ainda estão no lucro. A nossa missão hoje [dos rappers] é conscientizar as pessoas. O governo hoje governa para ⅛ da população. O presidente é totalmente despreparado, a vida dele foi bater em pessoas como nós, que lutam por essa causa [a da igualdade]. Deram o poder a uma pessoa estúpida em um país como o nosso. É praticamente um tiro no pé de toda a luta que a gente vem tendo desde o fim da ditadura.”

Rapper de direita?

Nem vamo falar nada. Vai tu, Menestrel: “Rapper de direita… que rapper de direita você viu dando certo? Todos são ridículos, horríveis, com músicas péssimas, que nunca vão chegar a lugar nenhum.”

Porém, alguns músicos altamente famosos apoiam o governo de direita, como, por exemplo, o Hungria. Vai muito do lifestyle, de você estar envolvido com outras pessoas. Ele [o Hungria] não tá conectado com a galera do rap. Ele não cola com a nossa galera, cola com a galera do axé, do sertanejo… e pra essas pessoas é normal votar no cara [Bolsonaro]. É falta de informação daquele lado do balcão. Menestrel, sobre rappers de direita

Calma que ainda tem mais: “Mas tem gente que é de direita e não assume por medo de perder público, tipo a Anitta ou até o próprio Neymar, que é um jogador de futebol. O quê que é o futebol no Brasil? Esporte feito pela favela. Rico joga golfe, NBA, baseball… Ele mesmo era um favelado. As pessoas se perdem por conta da grana, parece que se esqueceram do que viveram antes de serem famosas.”

É muito fácil você falar ‘ah, a culpa é do PT’ sendo que você nem tá na rua. Porra, você tá vendo tudo aí na TV, no sofá da sua casa, tu nunca tomou uma dura da polícia, nunca levou porrada, nunca foi humilhado. É lógico que você vai achar que bandido bom é bandido morto, vai achar que as pessoas têm que trabalhar até os 65 anos se fudendo. Tu já tem dinheiro, tá lindo Menestrel, sobre protestos

Menestrel não teme perder público por ter forte opinião. Pelo contrário: ele quer mais é que a  galera que não leva o que ele fala em consideração meta o pé do trampo dele. “Inclusive, se uma pessoa escuta minha música e tá do lado contrário, eu não vou ficar cantando pra jumento ouvir. Pode ir embora, porque não é bem aceito aqui. Quem é bem aceito é quem tá lutando pela mesma coisa. O nome disso é hip hop: um complexo de pessoas que estão se ajudando e conscientizando a sociedade. Se um cara que se julga fã não tá a fim dessa conscientização… Pô, irmão, vai ouvir sertanejo, house, essas coisa ai de playboy.”

Artista mainstream

Sobre ser um artista altamente famoso, Menestrel não nega que quer chegar lá. Porém, quer alcançar isso de forma diferente. “Eu quero chegar no nível de ser um artista mainstream, mas não da forma da Anitta. Eu quero ser como Djavan, Lenine… tipo pessoas que marcaram história, fizeram época, mudaram a vida das pessoas. Eu não quero ficar botando um monte de merda na cabeça das crianças e adolescentes só pra ganhar dinheiro. Nem todo mundo precisa ficar só nessa o tempo todo de música que vende. Eu penso da seguinte forma: a sua música que vende toca sexta, sábado e domingo, de segunda a quinta ninguém quer te ouvir. As pessoas precisam de uma música pra escutar no ônibus, no trabalho, em casa depois de um dia estressante… Elas precisam de conselhos, direcionamento. Eu acho maneiro fazer música de festa, mas você vai me ver fazer uma música de festa pra cinco músicas úteis.”

Ainda a respeito disso, ele continua:

“Eu gostaria de um alcance maior, mas um alcance mais útil, entende? Se vão chegar mais pessoas pra ouvir a minha parada, eu quero que elas estejam cientes do que elas estão ouvindo e do papel que elas têm com elas mesmas, com os amigos, família, sociedade que ela vive… não quero que uma pessoa só me escute bêbado numa festa, porque quando eu chegar nos meus shows, vai ser só mais um, mano. As pessoas vão ter comprado ingresso pra ir lá beber cachaça e beijar na boca, e não pra ver um show como era desde os tempos dos nossos pais que, na época, você parava na frente do palco e via, percebia, ouvia toda a parada. Não quero gente de costas pra mim quando eu tiver no palco, quero gente focada e prestando atenção. Às vezes nem precisa gritar, esboçar muita coisa, só basta estar parado, olhar e escutar. Alguma coisa você vai levar daquilo.”

A busca de alguns é se perpetuar, fazer com que sua música fique tocando o resto da vida, ter uns 50 anos de carreira hábil, indo em lugares, conhecendo pessoas… esse é o objetivo de alguns, como o meu, por exemplo. Só que aí vai de como você luta por isso. O que você faz pra sua carreira ser perpétua? Vai ficar só lançando música ou vai fazer ações sociais, vai expor sua opinião sem medo em programas de TV, etc? Menestrel, sobre carreira e futuro

Personalidades do rap

Aqui, a gente começa a linkar outro assunto, e acaba citando outros rappers da cena atual… Menestrel lembra como funcionam as apresentações do Djonga, por exemplo, artista que tem alcançado sucesso em vários públicos diferentes. “Hoje, o show do Djonga é uma manifestação cultural. É uma aula onde ele sobe no palco, canta, conversa, dinamiza com o público e faz o povo entender a posição dele. Os shows dele são compostos 95% por fãs de rap e 5% por  gente que é playboy mas não tem alma de playboy. Pra mim, não ter alma de playboy já tá ótimo. Seja branco, vai lá, tenha o olho azul… Seja rico, mas não tenha alma de rico.”

Ainda sobre o Djonga, e englobando outros astros: “Aquele moleque ali é meu irmão, e eu sei o tamanho do peso que ele carrega só pela presença dele. Só de tá do lado dele já é muito pesado, e desde antes de ele ser famoso é assim. Ele, Baco, BK, Brown, Emicida, Rael, Rincon [Sapiência]… pessoas que têm a posição bem definida dentro da cultura. Foram eles que me ensinaram a pensar como eu penso hoje. Eles são primórdios do hip hop, cultura, rua, vivência de rua. 

Costa Gold e Haikaiss

Em 2017, Menestrel participou da cypher Feeling, faixa do CD 300, do Costa Gold. Nela, ele trouxe versos como “Sou feio e talentoso igual o Ribery” e “Elas me ligam com aquela desculpa velha, que eu salvo, que eu bolo, a gente ri e assiste um netflix. Proposta irrecusável, nega, até me seduzi, pena que eu sou GTI e também sou só assinante free”… Enfim. O papo aqui é sobre o hate que Costa e Haikaiss, dois grupos que alcançaram sucesso meteórico há uns anos, têm em cima deles.

Menestrel concorda que esse ódio existe. “Eles têm um grupo de haters bem forte contra eles. É aquele princípio: o cara tem que ter conduta fora da música. Nog, Predella, Cidy e Gui é uma galera muito pura. Eles escolheram ir por outro caminho na música, mas eles têm representatividade, porque o início da carreira deles foi pautado em músicas politizadas.”

“O Haikaiss é respeitado por toda a galera do rap das antigas, tanto é que o Edi Rock é coladão nos cara. Tipo, o Edi Rock é o Racionais MCs, irmão. Então, não tem como julgar mal os cara. Lembro quando o Qualy chegou aqui em Brasília há cinco anos, isso aqui não era nada. Ele chegou, abraçou meus mano, quis ver eles ficarem grandes, abraçou o Froid, fez música com ele, pá. Não tem como falar que um cara desse não ajudou. Às vezes pode não ser a sonoridade que a galera se identifica, mas a postura pós-palco é outra. Eles cravaram o nome deles na cultura pro resto da vida.”

Futuro

Pra finalizar, Menestrel fala sobre alguns planos e objetivos. “Hoje, com quatro anos de carreira, eu prefiro estourar mais pra frente. No meu primeiro ano, eu já tava com músicas boas na rua, já tava sendo chamado pra projetos grandes e tudo mais. Mas será que usei isso da forma certa? Eu acho que não, porque eu não estava preparado, vai de você estar preparado pra coisa ou não. O que eu faria de diferente seria só questão de administração de carreira. Eu fazia tudo muito sozinho, talvez eu devesse assinado com um escritório para que gerissem melhor as coisas, mas são erros estruturais que você vai aprendendo com o tempo. Não deixei minha postura em xeque em nenhum momento.”

“Eu quero incitar as pessoas a pensar um pouco. O público do rap hoje é novo e ignorante, que tá vivendo a internet desde sempre, tem informação falsa nas mãos… quero ver essa galera buscar informação sem mentira.”

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Willian Matos

Jornalista. Natural de Brasília-DF. Toca samba e ouve música brasileira desde moleque. Escreve sobre rap e r&b na Escuta Que é Bom.

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