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As Bahias e a Cozinha Mineira lançam Tarântula mostrando maturidade e entrega total à música

Álbum revela novas aventuras do trio pela música brasileira, com liberdade artística à flor da pele

Na contramão da moda dos singles encontramos uma das bandas mais inspiradoras da música brasileira contemporânea. As Bahias e a Cozinha Mineira vencedoras no ano passado nas categorias de melhor álbum e melhor grupo de canção popular do Prêmio da Música Brasileira é uma banda de completudes. Não falta personalidade nas vozes de Assuscena Assuscena e Raquel Virgínia, não falta talento no encontro com Rafael Acerbi, não falta performance, nem inteligência. E não falta tempo pra se dedicar a obras completas com 10 ou mais faixas.

Este é o primeiro trabalho em que a produção foi compartilhada e feita com as artistas longe das cadeiras da Universidade. Com um título provocativo representando o aracnídeo que transmuta de gênero, mas também lembra a operação da polícia que perseguiu, violentou e matou lésbicas, trans e gays nos anos 80, As Bahias chegam ao grande mercado. O flerte com o pop é desenvolvido de Volta até chegar em Tóxico Romance única faixa com participação no álbum, com o rapper paulistano Projota.

Sem medo de exagerar, além da presença necessária nos cenários artísticos atuais, o trio é profissional e atinge níveis de exploração da música, nacional ou não, com uma requinte sem igual. E não é a toa que no ano passado fecharam contrato com a Universal após dois álbuns totalmente independentes, o segundo com a ybmusic. O que representa a oportunidade de chegar a novos lugares e alcançar novos públicos, popularizando os sons. De forma sutil se percebe essa a transição, do período experimental, antes comprometido mais com o conteúdo, agora com a forma ganhando relevância. E com ajuda da Faz Produções logo ocuparão lugares antes inimagináveis.

Se em Mulher as raízes baianas e mineiras foram exploradas profundamente, com incursões em sonoridades regionais, poesias próprias das nossas terras e poeira no ar. Em Bicha a teatralidade, a expressividade, a história e as estórias ditavam as regras. Na nova obra há uma experimentação radiofônica, com novos interesses. Nada tira o discurso das travestis, que também não deixam que nada as impeça de cantar frivolidades e se intrometer em assuntos e meios onde antes não eram convidadas.

A transição foi feita por Das Estrelas lançada em janeiro com Renata Carvalho protagonizando a trama que é uma mensagem melancólica, mas aproxima o público de reflexões positivistas enquanto nos atravessam com suas extensões e agudos perfeitos. É o fim de uma aventura de três anos com um resultado muito bem sucedido. Agora tão diverso e enigmático quanto as próprias artistas.

C A D A  F A I X A

Começando com a faixa Mátria – sugestão matriarca para pátria – o discurso provoca reflexões sobre a relação com a terra em que nascemos, que nas culturas originárias é relacionada à mãe até mesmo pela gestação, né gente? Equivocados associamos o território ao masculino, ao domínio do pai, algo parecido com a noção que os ‘patriotas’ tem do Brasil sem sequer valorizar a cultura brasileira em sua literatura, cinema e música, ou o que é cultivado e gestado em nossa nação. Tudo isso envolto num som cheio de guitarras que lembram o carimbó flertando com uns bregas e sambas.

Devagarzinho vem Carne Dos Meus Versos que logo se transforma em uma valsa com elementos do blues que emolduram uma letra existencialista. Naquele ritmo de músicas como Foi, Universo ou Melancolia, com ar de época e um wahwah que parece uma gaita, envolvendo rápido na história triste que é a origem de muitos de nós. Uma regressão apropriada para entendermos alguns dos traumas que nos acometem.

A música também ganhou clipe produzido por Rafael Carvalho com os três interpretando em meio à cidade em um dia vazio, tipo um domingo de manhã. Raquel de clown, Assuscena de estátua viva de anjo e Rafael representando o rebelde com causa tentam trazer graça a esse enredo complicado.

A novidade fica por conta da primeira música protagonizada direto da cozinha. Rafael Acerbi demonstra a afinação e leveza de sua voz, que passa longe dos clichês atuais em Volta. Uma canção de amor que prescrevemos para momentos de alegria, nostalgia, ou dor de cotovelo (antes do terceiro mês do término). As meninas aparecem no fim, depois da evolução do refrão e dão um brilho ao solo lindo e tocante do… cara, não tem como fugir desses lugares comuns quando uma música mexe com você como essa fez.

Shazam Shazam Boom é mais um código de resistência que podemos incorporar ao Aurélio Pajubá. Pode ser tanto palavra mágica para a auto estima, para dias em que precisamos de um gás quanto mais um hino de identificação pra cantar nas paradas. A música certamente fala direto à comunidade GTQ+ e já chega espantando quem for criticar a veia pop que a banda puxa nessa nova fase. Josefa Maria Um Doido Caso se não são consideradas hits, são no mínimo flertes com essa onda. Agora mais marcada com um clipe que a começar pela thumbnail escolhida já trata a banda como pop star.

Aqui a escalada para o palco pop começa a ganhar forma. Depois de duas faixas com elementos diversos, para alcançar ouvidos distintos, Pipoco e Pipoca entra com um ritmo cordelizado muito bem produzido até chegar em expressões que apertam gatilhos emocionais. Tudo Muda Nada Muda chegam em forma de conselho com códigos de um assunto sempre presente: drogas. Criticando da hipocrisia ao moço engajado que sempre ri quando passa um viado / sem saber que reforça o passado.

O Nome da Coisa traz os ares dos primeiros trabalhos evoluindo até um sambinha moderno e animado. Em clima baiano as  vozes interpretam, pedem bença e levam pra passear, conduzidos por repiques e pandeiros que te levam pra Bahia, seja agora ou depois.

Aí chega a faixa com Projota, que conseguiu cumprir seu papel com versos que conversaram bem com a música. Tóxico Romance é uma baladinha com um pé nos bailes do passado, sussurro pra começar, viradinha de guitarra, interpretação sedutora e sintetizadores bem desenhados. Uma fórmula certeira pra entrar em trilha sonora de novela. Se foi apenas pela parceria com a gravadora, tudo bem, o rap acabou dando um ar de hit de rádio ao som.

Voltando a falar de Das Estrelas o som ganhou bastante repercussão em seu lançamento, antecedendo o Dia da Visibilidade Trans. O clipe é um grito de resistência, falando de força diante da realidade cruel da expectativa de vida das mulheres e homens trans no Brasil e no Mundo. Falando em Mundo a música traz uma ideia maravilhosa que – agora partindo para um comentário pessoal – conversa muito comigo. Vindo do interior para uma capital com milhões de habitantes e luzes, notei o quanto é difícil ver o céu e as estrelas daqui. E sempre me questiono como há milhares de anos atrás as pessoas sem os postes e holofotes para clarear a visão e esconder o céu eram bem mais inteligentes que hoje em dia. Se antes o Universo nas nossas cabeças guiava nosso conhecimento, hoje o que mais tem é gente enterrada no fosso do próprio umbigo.

Leia mais sobre o clipe de Das Estrelas no post do TENHO MAIS DISCOS QUE AMIGOS.

E é desta situação deplorável que diz respeito Chute de Direita, que pelo título você já entende a provocação. Mas que é ambidestra. Vale também para a autocrítica dos setores que se deixaram iludir pelo poder e esqueceram as cisternas e caixas d’água do nordeste. Com metáforas do futebol e a “paixão nacional” ridicularizada pela própria política e não seus críticos, narra uma partida só com perdedores ao som de uma viola sertaneja.

E pra fechar esta obra completa Fuça De Um Fuzil já chega surrando a hipocrisia e ataca direto a ondinha internética de ódio, intolerância e preconceito. Contra isso, nossa bossa que é nossa força. O som é cheio de camadas, usa e abusa de instrumentos ruidosos e progressivos. Toda força do trio pra te recomendar: fuja da beira. Ou melhor dizendo, das extremidades que levam aos abismos.

ESCUTE TODO!

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Felipe Qualquer

No rádio desde moleque pesquisa o universo da música e escuta de tudo. Em MG atuou nas emissoras Minas, Nova e 94FM. Em Brasília passou por Transamérica, Metrópoles, e MIX FM. Escreveu para a Revista ShowBar e Jornal O Popular. Produtor cultural desde 2010 com os festivais EcoMusic, Rua do Rock, Usina de Rima, Grito Rock e Festa Nacional da Cerveja. Estuda Artes e Audiovisual na UnB. Criador da ESCUTA QUE É BOM.

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