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Em Busca do Som da Aura – Meu Amigo Tigre

Há toda uma cena da música brasileira que se esconde nos confins do YouTube ou do Soundcloud. Os mais intrépidos caçadores de recompensa podem sair varrendo a internet, dia após dia, sem nunca ter conhecido tudo o que há para conhecer. Porém, existem aqueles momentos em que um fio de luz brilha por trás de um canto escuro da web. Ao apontar sua lanterna para lá, você, explorador, encontra um som único, muito tímido para se revelar ao sol, bonito demais para inundar as rádios. Um tesouro, muito bem guardado. A banda brasiliense Meu Amigo Tigre é mais ou menos isso aí.

Começando em 2006, Eduardo Canavezes, Flávio Silva, Daniela Coelho e Vinícius Castro mergulharam em influências não tão comuns na música brasileira e foram embrenhar-se em sons exóticos, com a cabulosíssima missão de desvendar os sons da alma.

 

Meu Amigo Tigre

No início, a vida noturna brasiliense foi o palco das canções da banda, tocando em picos importantes da cena alternativa da cidade, como o saudoso Balaio Café. O compositor da banda, Eduardo Canavezes, me disse que era fácil identificar as principais influências da banda nessa época, lá no começo: Explosions in the Sky, Broken Social Scene, Appleseed Cast, Andrew Bird, The Books. Se você não conhece nenhuma dessas influências, não se assuste, o post-rock experimental nunca foi uma onda foda no Brasil. Mas tudo isso você consegue traduzir no primeiro álbum da banda, o Boris Kasoy em HD .

Logo no segundo álbum da Meu Amigo Tigre, o excelente Mapas muito antigos (2012), fica evidente que o som dos caras vai mais fundo do que a maioria das bandas de rock faz até hoje. Nos primeiros álbuns, dá pra ver até algo do Weezer, como na música que dá nome à banda, Meu Amigo Tigre. Em sons carregados de riffs surpreendentes e títulos irônicos, ora com voz, ora instrumental, a meu Amigo Tigre alcança momentos brilhantes como nas canções Chico Bento, do primeiro álbum e Abadá, do segundo. A verdade é que a banda consegue unir experiências sonoras únicas, numa harmonia de voz (algumas vezes) e instrumentos raramente vistos no Brasil.

A imagem pode conter: 1 pessoa, tocando um instrumento musical e no palco
Foto: Alexandre Bastos

 

Toró

Porém, é no mais recente trabalho que a banda alcança sua primazia. Canavezes contou pra gente que Toró (2018), o último lançamento, foi para rumos nunca dantes navegados por eles. O som do Hermeto Pascoal, Pedro Martins e Moacir Santos foram grandes influências.

Aqui, há espaço para um lance que me chamou atenção de primeira. A música É Deus-Mamãe, sexta faixa de Toró, faz música em cima de um vídeo que viralizou há um tempo. No vídeo, um sujeito simples se emociona ao ver um tornado, vendo a presença de Deus em um tornadinho na beira de um córrego. Por trás de uma falsa inocência, a banda extrai o que de mais bonito há num vídeo tão engraçado. E transforma isso em música. Brilhante, não é? É mais ou menos o caso de outras canções do álbum: Sina de Cigarra, Canta Ester e Todo Lado Tem Cu. Nas palavras de Edu Canavezes:

Sempre gostei muito desse vídeo. Um dia quis musicá-lo. Me encanta o crescendo da narrativa e a melodia que a voz dele desenha a cada reação. O vídeo começa com uma frustração de ter tentado registrar um tornadim (sic) e logo se testemunham as manifestações de deus-mamãe ⎻ prefiro interpretar o “é deus, mamãe!” que ele grita como “é deus-mamãe!”, tipo pachamama ⎻ primeiro com o ridimunho (sic), depois com o arco-íris, o cavalo branco, etc. A admiração sincera, autêntica dele; aquela família reunida à beira do rio, me parece um clima muito gostoso, muito genuíno, isso me inspirou a querer musicar.

Por fim, vale o recado: Meu Amigo Tigre não é para quem espera conclusões simples. O som dos caras tem música para ouvidos atentos e corações abertos. Como tesouro bem escondido que é, fará vários marinheiros desistirem no meio do caminho, mas aqueles que se atreverem a atravessar essas águas turbulentas verão a beleza de descobrir algo novo e empolgante. Como eu fiz.

Meu Amigo Tigre estará no Festival CoMA, que acontece em Brasília no fim de semana.

 

Fotos: Alexandre Bastos

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Natan Andrade Medeiros

Escritor de ficção científica e histórias de boteco, palpita nas horas vagas sobre música em todas as suas formas de vida (seja ela animal, vegetal ou mineral). Publicitário pela UnB e especialista em Mídias Sociais. Escreve contos e crônicas na publicação Simbiose, no Medium, desde 2016. Natan Andrade também está por trás dos podcasts da Escuta Que É Bom.

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