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O trovão ecoou, a espada cortou: Larissa Luz e o som afrofuturista de Trovão

Cantora baiana lança seu terceiro disco solo depois de sucesso como atriz no espetáculo "Elza"

“Quando a ignorância irá acabar?” perguntou Audre Lorde no discurso principal da Conferência Nacional de Gays e Lésbicas do Terceiro Mundo, em 13 de outubro de 1979. Quase quarenta anos se passaram desde então e a resposta ainda parece não mostrar sua face à luz do dia.

Vivemos num mundo em que as marcas do racismo, machismo, LGBTIfobia e intolerância religiosa reforçam discursos de ódio, elegem presidentes, encharcam redes sociais e questionam os pequenos avanços alcançados pelo Brasil nas últimas décadas.

A arte ainda se mostra primeiro, como cantava Falcão (O Rappa), e continua luminosa ao apontar, em breves palavras, verdades extensamente problematizadas pelo pensamento social e filosófico nacional.

“A cada passo pra frente a casa grande treme” é uma dessas frases que relatam o quadro social do Brasil da segunda década do século XXI pronunciadas por Larissa Luz em seu novo disco.

Por situações como as indicadas nessa frase, a temática de nossa estrutura escravocrata continua aberta a inúmeras possibilidades de reflexão e crítica social.

Explorada no cinema em obras como “Que horas ela volta?” (Anna Muylaert), na música, em discos como “Galanga livre” (Rincón Sapiência), e em centenas de obras literárias e acadêmicas, a temática de nossas heranças conservadoras e escravocratas indicam as complexas relações raciais de um país cuja elite econômica ainda não aceitou o fim da escravidão.

A existência e a potência de cantoras como Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França, que protagonizaram um dos shows mais bonitos desse ano (Aya Bass), feito em homenagem ao canto das mulheres negras, é a dádiva que nossa ancestralidade nos deixa e a promessa de um futuro de vidas possíveis para o povo preto desse país.

É exatamente nesse caminho entre a ancestralidade e o futuro, entre os passos de antes e o caminho a ser constantemente aberto à frente, que Larissa Luz tem pavimentado sua carreira, que brilha agora com Trovão.

Depois de dar vida às vidas de ninguém menos do que Elza Soares, o que fez com imenso êxito e reconhecimento nacional, Larissa Luz lança seu terceiro disco com o melhor da música contemporânea do Brasil.

Afrocentrado, o disco não pede licença pra passar e abre seus primeiros acordes com Aceita (Larissa Luz, Flávia Coelho e Rafa Dias), afirmando em som envolvente e letra inteligente que ela é de Iansã e Ogum e tem espada forte que corta os males e decreta o fim de toda exploração.

Larissa Luz – Aceita

(Larissa Luz, Flávia Coelho e Rafa Dias).

Trovão é disco coerente com o caminho trilhado por Larissa Luz e expande o seu território conquistado. Carrega a força das mulheres em energia cantada pelas composições de Larissa com o auxílio luxuoso de Bia Ferreira, Doralyce, Flávia Coelho e Ellen Oléria.

As vozes que se somam à de Larissa engrandecem seu “ritual baile”, como Luedji Luna, no hit leve e bonito de “Climão” (Larissa Luz e Rafa Dias); Lazzo Matumbi, com sua voz tamanha em “Corpo são, mente sã” (Larissa Luz e Rafa Dias) e a grande Ellen Oléria, com sua potência pop/urbana em “Acreditar” (Larissa Luz, Elen Oléria e Rafa Dias), que fecha o disco no ápice precedido pelo êxtase.

Dirigido por Heitor Dhalia e roteirizado pela própria Larissa Luz, o primeiro single do disco, Gira (Bia Ferreira, Doralyce, Larissa Luz e Rafa Dias) é obra contemporânea tecida em íntimo diálogo com o imaginário afrodiaspórico das religiões de matriz africana ditas e expressas em palavras, imagens e sons, como os do alabê Gabi Guedes.

Larissa Luz – Gira

(Bia Ferreira, Doralyce, Larissa Luz e Rafa Dias).

Como disse Larissa, em entrevista recente, o disco é “um chamado para a percepção e identificação das claves rítmicas que nasceram na África dentro de um contexto atual e futurista. Um elo entre passado e futuro. Algo novo sem ignorar o que fomos ou de onde partimos”.

Artesão dessa conexão com o toque futurista, Rafa Dias, do grupo baiano Attooxxa, garantiu com maestria a forte percussão eletrônica sentida em Trovão, essa descarga elétrica que ocupa o espaço trazendo força e energia que dá a vida.

Trovão é força, é raio de luz, é Xangô, justiceiro, ecoa, anuncia, é energia…é Iansã, sou eu!

Lançado em show nesse mês de maio de 2019 em Salvador, o disco Trovão é definido por Larissa como “macumba pop”, que propõe levar ao palco as referências que tantas vezes foram e continuam sendo massacradas pelo racismo religioso nosso conhecido.

Reconhecendo, pois, essas assimetrias raciais e trazendo o teor político desse debate para suas letras e músicas, Larissa demonstra reconhecer aquilo que nos disse Audre Lorde, para quem “nenhum de nós será livre até que todos nós estejamos livres e até que todos os membros de nossas comunidades sejam livres”.

Por isso, como Lorde, em sua incrível obra literária, Larissa está, em seu trabalho, contribuindo para “moldar um mundo onde todas as pessoas possam florescer, além do sexismo, além do racismo, além do preconceito de idade, além do classismo e além da homofobia”.

Você que chegou até aqui, não deixe de ouvir esse grande disco. Como sabemos, se o trovão ecoou é porque vem muita luz por aí.

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Fredson Carneiro

Baiano de Ibititá, sou apaixonado por música desde sempre. Sendo um diletante nas artes, sou mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília e doutorando em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolvo pesquisa sobre as transformações promovidas no direito e na política pelas lutas das pessoas transvestigeneres. Sobre a vida e a música, concordo com Milton Nascimento: "Há canções e há momentos/Em que a voz vem da raiz/Eu não sei se é quando triste/Ou se quando sou feliz/Eu só sei que há momento/Que se casa com canção/De fazer tal casamento/Vive a minha profissão".

FALA AÊ!

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